Sofia Ribeiro Fernandes, crónicas de uma Mãe Pediatra e de uma Pediatra Mãe



Sofia Ribeiro Fernandes, crónicas de uma Mãe Pediatra e de uma Pediatra Mãe


terça-feira, 5 de março de 2013

Os filhos dos médicos

Dizem os outros (que não são médicos) que os filhos dos médicos nascem em colos de seda, são bonitos, nunca ficam doentes ou se ficarem logo são tratados, fazem viagens à volta do mundo, frequentam colégios de elite onde se fala francês ou alemão, jogam golf, adoptam imensos Tios e Tias, chamam a D. Maria lá de casa para lhes trazer um bolo acabado de cozer, são tratados na terceira pessoa do singular, têm nomes compridos, chamam-se Maria em segundo lugar e quando forem crescidos vão ser médicos. 
Eu própria, médica filha de não médicos, disse-o muitas vezes até que conheci muitos quase médicos filhos de médicos e descobri que não é bem assim.
Os filhos dos médicos às vezes sonham sozinhos, abrem presentes sozinhos nas Noites de Natal, adormecem sozinhos, ficam doentes mais vezes e com doenças que só estão escritas nos livros, dizem e fazem asneiras, jogam futebol com os meninos do bairro, sujam a camisola de caxemira e a maioria das vezes não querem ser médicos.
R. é filho de médicos... Nasceu num colo de seda, é bonito e adoptei por ele imensos Tios e Tias, mas ficou logo doente e viveu num reino transparente durante dias e dias a fio, viaja entre dois mundos, voa na magia do seu mundo, mas nunca viajou de avião, fala com as mãos e com os olhos enevoados  ensinou os príncipes e princesas da sua escola esta linguagem de elite, galopa no cavalo que o ajudou a sentar-se, chama a vóvó para lhe dar a sopa... Mas, quando for crescido quer apenas ser feliz. 
Acho que o R., se pudesse escolher, não queria ser filho de médicos.

Os filhos dos médicos... é uma crónica um tanto ou quanto controversa mas arrisco a escrevê-la.
Ao R. e a todos os filhos dos médicos...



R.

12 comentários:

  1. Fabuloso Sofia .... Terno e eterno ...
    Numa linguagem metafórica, talvez até preenchida com pleonasmos ..
    Na essência uma linguagem sensível que toca o coração de quem lê com a alma.
    É todos os/as R's querem ser felizes ...

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  2. Conheci este blogue através do blogue do professor João Moreira Pinto e tenho a dizer que estou completamente viciada. Passo cá todos os dias à procura de nova crónica! Tem uma forma de escrever simples e muito emocional que me fascina! Pinta quadros com palavras! É extraordinário!
    Um beijinho,

    Ana Azevedo
    P.S.: O R. não é bonito! É muito bonito!

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  3. Gostei deste e de outros posts que por aqui li!
    O R. é um mimo de menino.

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  4. Como filha de médicos que sou (como tão bem me conheces) posso confirmar por experiência própria que isso é verdadeiro. Apesar de também médica (mas por decisão pessoal e nunca por influência) também fiz as minhas asneiras, também joguei à bola, também sujei as camisolas, também vivi...
    Por outro lado, também senti esses dias de solidão. Verdadeiras tardes infindáveis em casa sem a companhia de nenhuma D. Maria, sem a companhia dos meus Pais que nesse momento, estavam a acompanhar filhos, maridos e irmãos de outros...
    Como ortopedista infantil que o meu Pai foi, tratou muitos principes e princesas de outros, mas voltava sempre para casa... Vários momentos de solidão foram aos poucos compensados com o crescimento, ao aperceber-me de como os meus Pais eram os "Pais" dos outros pricipes e pricesas.
    Apesar dessas horas de solidão, eles são sem dúvida o meu Orgulho e os meus verdadeiros Idolos. Como tão bem os conheces poderás confirmar isso.
    Ser filho de médicos não significa que deixemos de VIVER.

    Beijos Shiuisha

    Maria José Teles

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  5. Parabéns ao meu Pai que hoje completa 66 anos, e em que todos esses anos foram a cuidar da filha, mas também alguns a tratar de tantos principes e princesas de tantas Mães e Pais de coração nas mãos.
    Em dedicação a Ele, por todos os outros dias de aniversário ao longo destes anos (meus e dele), em que não podemos estar juntos, para que outros Pais possam hoje estar a comemorar aniversários com as suas princesas...


    Maria José Teles

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  6. Tão real, tão sincero, tão sentido... é verdade, até os "filhos de médicos" ficam doentes! Os filhos de médicos são crianças como todas as outras, e se virmos bem, ao contrário de terem tudo ao alcance e uma D. Maria sempre à disposição, estes "filhos de médicos" ainda se "dão ao luxo" de partilhar os seu pais com mais uma boa centena de principes e princesas!!! Parabéns Sofia, pela forma como escreve, e obrigada por partilhar connosco o que lhe passa na alma! Beijinhos de uma admiradora muito especial... Cláudia

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  7. Embora entenda o desabafo da colega pq, sem dúvida, todos sonhamos com crianças saudáveis, não vejo as coisas bem assim. Como médica de família assisto agora, algo impotente, aos dilemas das classes sociais mais desfavorecidas, onde de facto não há Marias em 2º nome (e ri-me pq conheço uns poucos de casos em filhos de colegas), nem empregadas Donas Marias disponíveis para as crianças ou para passear o cão, e onde tb as crianças sentem a distância dos pais, q não se limita à ausência no Natal ou no aniversário, mas muitas crescem a vê-los apenas aos fins-de-semana ou nas férias, pq estão a trabalhar nas obras em Espanha, Angola ou outros tantos países longínquos. E não, o emprego deles não é tão glamouroso como o nosso (q às vezes de tão imerso em burocracias parvas tb pouco tem de glamouroso), mas tb os retem longe dos filhos e da família.
    Tb assisto ao caso de pais não médicos com filhos com doenças raras...lembro-me do Igor, com Síndrome de Costello, cuja gravidez foi aparentemente normal até uma fase bem adiantada. Vejo o carinho dos pais. A mãe desempregada por não renovação de contrato após a gravidez, tem, sem dúvida, mais tempo para ele do que a maioria dos pais, mas talvez preferisse ter melhores condições socio-económicas para ele...e reafirmo o TALVEZ, pq lá está, para as ter tantas vezes temos de abdicar do nosso precioso tempo com eles, a acompanhar a aquisição de cada pequena nova competência q é ainda mais celebrada do q nas restantes crianças. Acredito q tb o Igor apenas quer ser feliz, mas não creio q vá preferir q os pais não fossem médicos, ou o contrário...não creio que isso vá fazer qq tipo de diferença para ele.
    Ainda assim acho q, nós médicos, somos priveligiados no acesso a cuidados de saúde...felizmente ainda há portas q se abrem através dos conhecimentos entre colegas, pese contra, contudo, o atendimento de corredor e a típica frase do "como tu já sabes faz assim assim e assado" tradicional entre colegas, já para não falar no nosso próprio desmazelo q, desvaloriza todo o tipo de sintomas pq não temos tempo para estarmos doentes.

    Termino apenas dizendo que a imagem da criança nascida em berço de ouro é real e a alguns assenta como uma luva, mas de todo não exclusiva da classe médica e tb não deixa de ser um estereótipo que não se aplicará a todos os filhos de médicos, sobretudo qd um dos membros do casal não é médico e pode não gozar da mm posição social. Ainda assim, com as muitas interferências familiares que a nossa profissão tem, os horários complicados, as ausências e afins, agradeço o facto de me permitir dar algum conforto à família (temo e lamento q isso possa a não vir a ser o futuro da nossa classe, sobretudo nos internatos). E não pensem que sou uma idealista agradecida, pois também reconheço que, se a nossa profissão nos permite alguns privilégios socioeconómicos, tb trabalhamos arduamente toda uma vida por eles e por isso são COMPLETAMENTE merecidos, não só pelo esforço, stress, carga horária (q por vezes chega a ser desumana) e afins a que somos sujeitos, que serão comuns a tantas outras profissões, mas sobretudo com uma responsabilidade e sentido ético pela vida humana que nos é exclusiva e que não tem preço.

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  8. Olá

    Sou médica, filha de médicos e tenho uma filha filha de médicos... Adorei é mesmo isso

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  9. Que grandes verdades diz, Sofia! E não as diz "com ansiedade", mas com calma, com os pés bem assentes na terra. Como eu gosto de ler o que escreve! Abraço-a, mas com um abraço cheio de ternura!

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  10. Fiquei a ponderar sobre os seus comentários. Vida fácil/difícil a dos filhos dos médicos?
    Sou filha de médico, casada com um medico, e mãe de uma médica também ela casada com médico e, também eles a caminho de serem pais!...( Porque a classe tem destas coisas, aproxima os seus pares, vá-se lá entender porquê).
    Cá por casa ainda se fazem muitos bancos, em casa da minha filha também, (ela a começar o internato, ele recém especialista) Sim sim, o baby virá "se Deus quiser", será muito bem recebido, muito bem amado, mas a principal preocupação, quem olha? quem cuida? nas noite e nos dias em que 24h de hospital não bastam? Estranhos? está fora de questão.
    Eu e a minha filha tivemos sorte, a minha mãe não era médica, cuidou de mim e mais tarde dela. Mas, será que apesar dos nossos 50 anos, vamos conseguir deixar de fazer bancos de 24h?, até agora não. Será que vou/vamos, puder ficar com os netos nos dias de banco dos pais; será que conseguimos, por sermos "Juniores" fugir as escalas complicadas? Veremos o que o futuro vai ditar.
    Sinceramente, não me parece que a minha filha tenha ficado traumatizada por ter passado 2, por vezes 3 noites por semana em casa dos avós, mas estranhava, quando não havia pais presentes no dia de Natal, passagem de ano, Pascoa, mas afinal não esses os dias da Família? Agora, também ela terá que deixar os seus filhos nesses dias, porque também esses são dias de cuidar das famílias dos outros.
    Ser filho me médico não é fácil, (há bens que não se compensam com colégios caros, nem com Marias dedicadas, que as jovens classes de médicos, não sei se pode pagar) mas acredito que difícil mesmo é crescer numa família deles.

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