Sofia Ribeiro Fernandes, crónicas de uma Mãe Pediatra e de uma Pediatra Mãe



Sofia Ribeiro Fernandes, crónicas de uma Mãe Pediatra e de uma Pediatra Mãe


quarta-feira, 30 de maio de 2018

365 dias

Balanço, diz o dicionário, ser o equilíbrio proporcional entre duas coisas. Não sou de balanços, de todo. Mas, são 365 dias, quase passados e não consigo deixar de rever em modo curta-metragem, talvez até a preto e branco, para realçar as pequenas coisas,  esta outra passagem. 
A dor de barriga miudinha que corrói a cada toque do telefone de emergência, que sempre tive e acho que vou manter para a vida. Os rostos sem nome, que ainda hoje são muitos (ou tantos, como diria a S). O raspanete ácido da Sr. Dra. do Serviço do alheio, ainda hoje de nome sem rosto, que se recusava a falar com colega de voz nova e a roçar juventude, que lhe pedia uma tão necessária transfusão e "ali não era assim" (mas na realidade era imperativa a transfusão e ali era igual a todos os outros lugares). O sistema informático, cujas manhas descobri sozinha. Os corredores tão iguais, maquiados de cores diferentes, que levam a saídas rápidas do elevador, quase sempre em modo engano. Os hábitos e costumes inabaláveis. Os olhares de soslaio, de quem não nos conhece. Os que vão sorrindo e que agora já se riem também. Tudo pormenores. 
O que fica e faz suster a respiração? 
A primeira chamada de emergência. O post-It com a preparação do NaCl a 3% que colei na Urgência. A capa de cartão colorida que aguenta os meninos, 24 sobre 24 horas. A noite de Natal, por entre cateteres, a desembrulhar presentes que não acabavam mais, num ritual já antigo (todos do Serviço deixam presentes para quem faz noite de Natal). A conversa interminável com a mãe do menino-que-nada-iria-fazer mas que demonstrou que o “nem sempre, nem nunca” da Medicina são tão verdade. (Nada que eu já não soubesse, por vasta e calejada experiência pessoal.) A primeira viagem de ida, as primeiras adrenalinas, as primeiras compressões, a primeira dança sincronizada em que não ganhamos o prémio. (Ficam o nome e cama tatuados na memória.) O bolo de chocolate, maravilhoso, que veio das mãos da Mãe que tanto gosto, daquela que não deixo ficar de olhos vazios, da que abraço (eu que não sou de abraços) sempre que os seus ombros se inclinam para mim. A pequena franzina que “deu a volta” depois de rodopios e piruetas, de uma arte quase circense. Ficam os fins de tarde, cor de clementina, que invadem as janelas amplas do corredor. Os telefonemas, não raros, com as vozes amigas do lado de lá do Porto, com as minhas Ms que trazem conforto à alma.
Já me sinto daqui, embora ainda não me sintam daqui. Mas, sou sobretudo e isso sim, é o que conta, sou dos meninos e dos que que estão no cadeirão contralateral ao ventilador. 
365 dias. 

365 dias
Picture by night


domingo, 29 de abril de 2018

Misty days

Somos feitos de neblina daquela que invade o Rio pela madrugada, vinda da Foz, silenciosa e que num piscar de olhos fecha o retrato para o Porto antigo. Somos feitos de átomos e células que se empilham que nem um Lego e fazem um corpo e, é isso que sabemos tratar. Mas, acredito que somos mais do que isso. Não são as células com núcleo e mitocôndrias que nos fazem adorar estradas de asfalto com árvores caídas sobre nós, daquelas que nos levam para longe, nem que seja por instantes. Não são os átomos que nos fazem arrepios ao som de música ou que nos dão a leveza do perfume de jasmim do vaso da varanda. Somos muito para além do que se vê, do que se lê nos livros. Somos inesperados, crus, transparentes. Somos feitos de retalhos de instantes. E, todos sem excepção, somos assim.
É imperativo esquecer (por instantes) o que vai para além da frequência cardíaca e da saturação, para que a cadência de cada acto não se perca, para que a reanimação seja um sucesso, para que o tratamento seja perfeito. O corpo é uma máquina naquele instante e há que pô-la a funcionar. Viramos engenheiros do corpo. 
Mas, no instante em que tudo se acerta, o nome surge, os instantes, os momentos, o que vai para além  das peças de Lego... Pode parecer insensato ou até violento, mas é assim!
Perdem-se alguns pelo caminho, dos que pouco tinham viajado na vida e dos que já tinham uma história contada... Marcam-se no calendário dias de neblina, inesquecíveis, temerosos e sabemos descreve-los um a um... As últimas respirações, o ritmo das compressões, as adrenalinas, os ritmos, os gritos dos monitores, a hora. Perdem-se anos de vida neste caminho, enruga-se o rosto, mas o nome, a cama, os pais, o boneco favorito, ficam para sempre. São a neblina, daquela que invade o Rio pela madrugada, vinda da Foz, silenciosa e que num piscar de olhos fecha-nos o retrato desse dia, para sempre...


Pinky days












quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Com o peso do Mundo às costas

Com o peso do mundo as costas... parece uma metáfora, um cliché, um exagero. Pode até nem parecer nada, sobretudo para quem também nunca sentiu esse peso esmagador da alma. Mas, senti-o também. Vi-o e senti-o. A sua potência esmagadora, o seu grito mudo escruciante, a sua força de Ulisses. Oscilava entre a posição de cócoras amparada pela parede nude e as pequenas mãos desnorteadas do pequeno filho no leito. Os olhos ficavam caídos, colados no chão esterilizado e, por entre momentos, deslizavam medrosos até encontrarem os olhos vagos e recheados de lágrimas do filho. As palavras eram soltas,  num tom tão calmo que arrepiava, interrogatório-afirmativas de uma esperança muito vã. Fui-me deixando ficar de olho no monitor e em ambos, logo ali atrás dos processos clínicos. A reviver uma dor tão parecida. E, num esgar de lucidez, ultrapassado pela ciência, fui levantá-lo do chão, desamarra-lo da parede que segurava com o dorso franzino. Puxei-o e disse-lhe: “nós tratamos dele e faremos o melhor, cabe a vocês terem a fé e a força que nem vocês sabem que existe. Não permito que esteja assim...” Desenhou-se um sorriso e apertou-me com força as mãos.
Não sei se resultou, mas era simplesmente o que eu queria que me tivessem dito quando tive o peso do mundo às costas... 


Aos colegas: sei tão bem o quanto é difícil dar más notícias e também sei tão bem, o quanto é duro ouvi-las. Mas, às vezes, acredito que na maioria das vezes, é imperativo, falar com os familiares, ouvir, responder e perguntar ou simplesmente, fazê-los sentir que estamos lá. 

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Natal, em linha isoeléctrica

Sabe a agridoce assistir aos Pais que reclamam da comida ou da posição das cadeiras na Festa de Natal da escola, quando os teus olhos colam fixos e estáticos e a  tua respiração vira apneia, ao vê-lo tentar-se levantar sozinho no palco da actuação do 3ºano. Era a abertura da actuação do seu ano e iniciava-se com o seu acordar lento do chão. Dirigiam-se a ele, um menino e uma menina, provavelmente os maiores da turma, para o erguerem mais rapidamente do seu acordar simulado. A sua destreza bandida às vezes prega partidas e preguiça. O seu erguer foi lento, ou pareceu-me a mim e, por momentos, anosmia, assistolia, apneia, e todos os "a"s da Medicina (que geralmente não são bons), colaram em mim e os meus olhos colaram nele. Morri por segundos... (e acho que nunca vou deixar de morrer aos bocadinhos)
Queridas pessoas do lado, que reclamam e barafustam com os filhos, porque se enganaram na dança ou no momento de iniciar o canto, não desejo jamais que tenham estas linhas isoeléctricas de pensamento... por isso, aplaudam, riam, olhem-nos, por favor!


quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Gira ao contrário

O mundo gira cada vez mais ao contrário. Está tudo errado. Conto dois dias em que aprendi que a ajuda nem sempre é uma benção. 


Um pontapé no meu tempo é como descrevo a primeira vez que percebi que acima de tudo impera o negócio. Chove lá fora. O Porto veste-se de um cinzento-cimento, frio que se dilui pela calçada antiga a fazer a viagem de carro parecer uma volta de montanha-russa. Entro no Centro onde as pessoas andam aos pares a resolver coisas de meninos raros. E, onde os meninos raros gastam o tempo pelos corredores, deambulando sob rodas. É também um sítio de meninos raros onde a vida flui todos os dias igual a sempre. Propus-me a oferecer parte do meu tempo a fazer Consulta de Pediatria gratuitamente e, a resposta, por entre os agradecimentos tecidos, foi favorável, nada entusiasta, mas teria que ser necessariamente remunerada. Recusei. Fá-lo-ia gratuita e voluntariamente, nunca aceitaria dinheiro.

Recusaram-me.
E assim ficamos. Eu com o meu tempo quase acrobático mas que guardei no bolso, o sítio sem pediatra. Engraçado, quase caricato, como se recusa a ajuda voluntária, só porque sim.


A outra vez descrevo-a como um balde de tinta não nos chega. Há cerca de 2 anos, estabeleci milagrosamente a ponte entre um centro de reabilitação algures do Porto e uma grande empresa, para o apoio à reabilitação do mesmo, gratuitamente. Criada a ponte, enchi-me de telefonemas, hiperactiva como sempre. Pois bem, uma pintura, mudança de piso, decoração foram recusadas, porque afinal o que queriam mesmo era uma sala sensorial. Uma bela ideia, ajustada às patologias, mas que a empresa não poderia concretizar. Recusaram então qualquer outra ajuda porque o que queriam mesmo era uma sala sensorial. 




Há um mundo virado do avesso. Pessoas que recusam dádivas. Pessoas que usam os donativos para o fausto, para representação da raridade alheia ou que simplesmente não os aceitam porque queriam uma coisa diferente. Perde-se, e sei que erradamente, a vontade de ajudar, a acrobacia do tempo, a mobilização dos outros.

Mas não se pode perder, porque os raros não se perdem pelo caminho.


Os raros podem ser super heróis, desde que não se percam pelo caminho.