Sofia Ribeiro Fernandes, crónicas de uma Mãe Pediatra e de uma Pediatra Mãe



Sofia Ribeiro Fernandes, crónicas de uma Mãe Pediatra e de uma Pediatra Mãe


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O Dia de Todos os Rs

Dia Mundial das Doenças Raras.
Sinónimo de dia em que os senhores e senhoras do mundo com relógio espreitam o mundo dos príncipes e princesas sem tic-tac... 
Do lado de cá, onde os ponteiros do relógio são preguiçosos e não fazem tic-tac, salpicado com pincéis de aguarela, com cheiro a cupcake acabado de sair do forno e ao som de pingos de chuva, os príncipes e princesas indiferentes aos olhos curiosos, continuam a aprender a andar, a correr, a saltar, a falar, a ouvir, a ver...e, ouvem-se as mesmas risadas de sempre! 
E, o príncipe R., redondo e atarefado, hoje, como todos os outros dias, aprendeu mais um pedaço de vida e com um sorriso meio desdentado e puro, abriu as portas do seu reino e fez alguns senhores e senhoras aprendizes do que é ser feliz.

Como fala com as mãos e, por vezes, alguns senhores e senhoras desse outro lado do mundo não o percebem, o R. deu-me as chaves das portas transparentes do seu reino. Trémula, abri as portas do mundo do R. e de tantos outros pequenos Rs... Como existo muito do lado de cá, as minhas mãos também falam numa dança quase estonteante, mas apesar disso espero ter-vos levado numa viagem ao mundo em que o lema final é tão simplesmente ser feliz! 
E, assim sendo, Sejam bem-vindos nesta viagem!

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Amores

Amor-perfeito com perfume de primavera; amor à primeira vista, algures numa rua de Paris, debaixo da nota de um violino; amor-cão feio, escuro e ensanguentado; amor para sempre das cartas antigas envergonhadas no livro de cabeceira, do bolo de noiva de açucar glacé, perdido; amor do primeiro namorado, carimbado para sempre, mas que nunca para sempre, recheado de juras, reluzente; amor da melhor amiga, que fala baixinho, que guarda reliquias, dos telefonemas de madrugada, intemporal; amor fugaz aquele que ilumina as férias de Verão, às riscas azuis e brancas de uma barraca de praia, que faz derreter uma bola de gelado de gengibre e limão; amor à distância que escorre por entre os dedos esticados sobre o asfalto; amor-bandido, feroz, cítrico e traiçoeiro; amor de amigos que ri à gargalhada, embriagado, nocturno; amor porque tem de ser, desconhecido, irracional, amor dos primos que nunca vemos; amor de Mãe que se desenha com tinta permanente, de suster a respiração, vestido de branco e com perfume a maresia, que faz vento na barriga, cheio de um tudo, cheio de medo, cheio de luz, cheio de alegria, cheio de paz, simples, cru e inato...é um amor não lapidado, que vem e que não vai, é um amor de sempre.

Ao amor de sempre, R.










domingo, 24 de fevereiro de 2013

Bichos

O príncipe R. tem medo dos bichos... É um medo curioso que se desenha nos olhitos arregalados, nas mãos saltitantes que escorregam velozmente para trás e que descreve com um trémulo tímido dos ombros rechonchudos. Não gosta do cabelo dos bichos, não gosta das danças traquinas, não gosta das vozes. Diz que não e foge e eu deixo-o ir...mas volta sempre, e percebe que depois de os deixar entrar no mundo sem relógio, os bichos ficam com ele, correm com ele e levam-no até onde ele quiser.
O cavalo foi o primeiro bicho que entrou no mundo do R.. De trote imponente, cabelo sedoso preto como o carvão, voz rouca como um velho, pareceu-lhe assustador e não o deixou entrar. E, assim foi, o cavalo não entrou. Mas, foi sempre vê-lo com a senhora cor de cevada de mão dada, até que um dia o dedo trémulo tocou no cabelo-carvão, esboçou um sorriso longo e ergueu-se no seu portentoso esplendor. E, nesse momento, deixou-o entrar a galope no mundo dos meninos sem relógio, e nunca mais o deixou sair.
A passo, a trote e a galope, o bicho levou o príncipe R., ensinou-o a voar, fê-lo sentir o vento fresco no rosto pequeno, aqueceu-lhe as mãos, libertou-o.
O cavalo, que o R. desenha majestosamente com a ponta do dedo como um círculo no ar, é o bicho que fez do R. um príncipe sem medo.
E, outros bichos virão, e não vão poder entrar de rompante, mas depois de entrarem ficam com o R. deste outro lado do mundo.

Bichos é um nome menos bonito dirão alguns. A mim, parece-me o mais correcto. É o nome de todos os seres que podem estar em ambos os mundos, no mundo dos meninos com relógio e sem relógio, porque não sabem o que é um relógio.

Bichos

Tulipas

Adoro tulipas de pé verde comprido... Fecham-se caladas as pétalas macias num abraço apertado, singelas como um cálice de cristal de outrora, espreitam e dançam muito devagarinho a tentar namorar os pingos de sol.
Adoro tulipas brancas como os vestidos das noivas, amarelas como o caril, pintadas de vermelho-fogo, de pé verde comprido salpicadas pelo brilho das gotas de chuva... 
Adoro a simplicidade de um bouquet de tulipas acabadas de colher ou  atadas despretensiosamente em papel de um jornal do mês passado, o perfume enebriante da terra com tinta de impressão, a desorganização encantadora a esboçar um momento.
Adoro os momentos das tulipas...os que acontecem na porta do mercado, inesperados e genuínos, simples, mudos e cor-de-rosa.

H., obrigado pelos momentos das tulipas, com e sem elas...


Em modo momento das tulipas

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Frio ( que faz por aqui)

Frio...
Detesto o vento frio que faz encrespar os pêlos dos braços, o medo frio que rodopia na barriga, tomar banho de água fria, caminhar com os pés no chão frio, farturas douradas frias de um qualquer arraial, lagartos de pele fria, cinzento-cru e frio, olhares desenfreados e frios, pingos de chuva agitada, furiosa e fria, o frio que se apodera do corpo depois de uma noite mal dormida, palavras compridas e frias, café desbotado e frio.
Detesto o frio que fica, que não se vai embora, o frio que não derrete com camisola felpuda de lã ou com uma chávena de chá de limão fumegante junto às labaredas enlouquecidas de uma lareira. Detesto o frio que está cá dentro....


Os sítios de termómetro avariado são imensos por aqui... Sinto-me uma gota de sangue escarlate quente e fervilhante a cair desamparada numa mesa de bloco operatório fria.