O tempo parou ontem às 2 horas da madrugada quando uma pequena mão de dedos fininhos com unhas de papel agarrou na minha.
Parou o meu tempo, as minhas angústias, a minha ira pelas constantes e permanentes mudanças, a ventania abrandou.
Parou o tempo daqueles olhos de Down, parou o choro e o esbraçejar com um simples calor da minha mão.
E, assim ficamos, mãos entrelaçadas, num terno silêncio, aconchegante...num tempo parado, as duas, num breve instante que me fez acalmar este rebuliço permanente.
Obrigado pequena grande princesa de um reino transparente com olhos ternos de amêndoa...
Sofia Ribeiro Fernandes, crónicas de uma Mãe Pediatra e de uma Pediatra Mãe
Sofia Ribeiro Fernandes, crónicas de uma Mãe Pediatra e de uma Pediatra Mãe
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
Crónica das Avós
A crónica das avós, é talvez a crónica mais complexa de escrever. Adjectivo-a como complexa porque é muito difícil descrever em palavras uma Avó. Prefiro dar-lhe um nome: Lurdes (avó Lurdes), pronúncia cantada do Sul, olhos singelos cor-de-esmeralda, cabelos curtos tingidos de preto, pequena como uma ervilha, inquieta como o vento e a transbordar amor. Saudades...
E, pergunto-me se não serão assim todas as Avós?
"Conheci as senhoras-avós, a quem prefiro chamar vovó, quando fugi do meu reino transparente. Esperavam-me com olhos reluzentes e uma ânsia quase arrasadora de colo com uns papéis coloridos e mil balões arco-íris. Falavam aos gritos, vozes estridentes e apressadas, e rapidamente percebi que a vida cá fora não ia ser fácil...
Fugazmente, a mais comprida, elevou-me nos braços e apertou-me tanto que quase não conseguia respirar. As mãos eram gigantes (quase do meu tamanho), voz elevada e pele cor de cevada. Timidamente, a outra, lábios de morango, com cheiro a gelado de amoras, prendia os meus dedos fininhos por entre os dela. E, o meu "tum-tum" tuntunzava como um cavalo a galope de tanto amor.
E, foi assim que conheci as vovós, a cor de cevada e a lábios de morango, que comigo constroem as crónicas da minha vida."
Esta crónica é uma mera introdução às personagens mais importantes da crónica do príncipe sem medo.
Noite de Natal
Os dias, aliás as noites, passadas no sítio das caixinhas transparentes, fazem-me ser mais que Pediatra, fazem-me ser uma Mãe que já viveu uma história desses reinos.
E as histórias desses reinos são muitas vezes muito difíceis... Reinos onde os príncipes e princesas se esquecem de engolir o ar, de fazer o coração saltar e de muitas outras tropelias.
E, estar deste outro lado dos reinos, trajada com um pijama outrora cor de neve, depois de já lá ter vivido, tem um sabor quase estranho.
"Noite de Natal: a Mamã foi mais Pediatra, viveu com outros príncipes e princesas, as suas aventuras quase destemidas, tentou corrigir as suas asneiras e esqueceu-se da hora dos presentes porque estava de touca colorida e pijama desbotado a mexerixar nas máquinas ensurdecedoras.
E, como a minha Mamã, muitas outras Mamãs estiveram a cuidar de outros príncipes e princesas, para que outras Mamãs deixassem de ter mãos trémulas e olhos lavados por água salgada...
De manhã bem cedinho, eu já podia ter a minha Mamã de cabelo esparguete com cheiro a canela... Por isso, acho que não fiquei triste!"
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Amiguinho
O príncipe sem medo tem um companheiro de aventuras e desafios, com os mesmos cinco anos, a quem baptizei (diria até estupidamente) de Amiguinho. Desbotado, cor de papel velho, diria quase assustador, continua a ser o amigo de sempre, insubstituível e tenho terrores nocturnos com o pensamento de um dia se perder...Eis, a crónica do Amiguinho
"O Amiguinho de traje cor-de-mel, mãos de veludo, olhos redondos e capuz com um floco de neve na ponta foi desde o primeiro dia o meu companheiro inseparável. Não sei de onde veio, quem é a sua Mamã, mas foi ele que encostado à minha barriga-balão esteve sempre presente nos meus momentos de pouca doçura. Ouviu-me reclamar, dormir, ouviu a minha Mamã, as senhoras-fadas. Fez travessias ao meu lado pelos corredores assustadores de tectos cinzentos e vazios rumo a mais um desconhecido. E, nos olhos redondos e parados, encontrei o meu primeiro e melhor Amigo.
Não lhe consegui dar um nome digno até hoje, até porque até há bem pouco tempo ainda não sabia como fazer para chamar as coisas e as pessoas, mas agora que já sei Amiguinho parece perfeito, e como ele não fala (tal e qual como eu não falava), não se pode queixar.
Tem cinco anos (como eu), mas já parece muito velhote, enrugado como as minhocas e magrinho como um fio de chuva. Fica zangado quando vai tomar banho naquela máquina que rodopia e que o faz cheirar a mimosas (e eu confesso que também não gosto daquele perfume). Fica cansado quando vamos para a ginástica dos muitos príncipes e princesas como eu. Fica contente quando vamos para os lençóis brancos acabados de esticar. Mas, acho mesmo que ficou muito triste de ter perdido o seu capuz numa tarde de chuva em que o deixei cair e por isso ficou enrugado como as minhocas e magrinho como um fio de chuva.
O Amiguinho não diz nada, não anda, não come, não é bom aluno como eu, apesar de trabalhar como eu em todas as lições que tenho tido.
Mas está sempre lá de mãos dadas comigo a sorrir com os olhos redondos que espreitam num traje desbotado, outrora cor-de-mel."
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| Desbotado, mãos de papel e ainda com capuz (que agora já não tem) |
Doce ou azedo?
A crónica do dia-a-dia do príncipe sem medo no reino encantado das paredes transparentes e de senhoras-fadas contado na primeira pessoa, tal como eu o imagino...
"Nos três dias seguintes e nos restantes que se
seguiram, por entre príncipes e
princesas quase iguais a mim, foi
assim. Por entre quatro paredes
transparentes com quatro janelas que
abriam e fechavam delicadamente, conseguia ver movimento lá fora... Passavam de
um lado para o outro umas senhoras-fadas, de mãos quentes com dedos de algodão,
que conseguiam ouvir o meu grito de entusiasmo e abriam as janelas para me
tocarem. Só não percebiam que não queria aquela feroz agulha no pé a cada duas horas, nem aquele senhor branco e doce como mel na minha boca, porque não sabia
o que fazer com ele. E, assim estive dias e dias a fio, a tentar ficar mais
doce, por entre fios que entravam e saiam de mim.
Mas as mãos mais quentes eram aquelas que voltavam todas as
manhãs, que me punham no colo e que cantavam ao meu ouvido baixinho. As que me
traziam trajes de príncipe com cheiro a nuvem e que me tocavam incessantemente
repletas de vontade de chorar. As que paravam suadas depois da picada no pé à
espera de ouvir um valor aceitável ou pelo menos mais aceitável. As que me
seguravam na cabeça e durante minutos sem fim insistiam em fazer-me beber
aquilo branco com sabor a mel.
Também percebi que os outros príncipes e princesas, cada um
no seu reino, afinal não eram quase iguais a mim... Tinham outras Mamãs, tinham outros fios e alguns tinham até umas máquinas amiguinhas (digo eu) que
as senhoras-fadas com os dedos de algodão carregavam.
No reino transparente mesmo à frente do meu, havia uma
princesa de cabelos cor do sol e olhos arregalados, a quem tinham feito um
desenho no sítio que faz tum-tum, que gritava alto e talvez por isso, vinham
muitas máquinas iluminadas e senhores de ar sério para a espreitar. (Nunca mais
a vi!)
E iam e vinham, e iam e vinham...novos príncipes e novas
princesas... Mas eu continuava cá."
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