Sofia Ribeiro Fernandes, crónicas de uma Mãe Pediatra e de uma Pediatra Mãe



Sofia Ribeiro Fernandes, crónicas de uma Mãe Pediatra e de uma Pediatra Mãe


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

In my veins

Corre nas veias a uma velocidade furiosa, emergente e invasiva. Chama-se paixão. Paixão pela taquicardia, paixão pelo arrepio que desce a coluna vertebral, paixão pelo desconhecido. É parte de mim e faz-me falta... Sinto-o nas conversas de corredor, no desfilar dos retratos à mesa da secretária. Sinto-o quando entro no hospital-mãe e ao entrar, cumprimento os porteiros (os mesmos de há tanto tempo). Sinto-o no bar do café em que amavelmente perguntam se estou bem e namoram o meu perfume. Sinto-o quando o frio do corredor entre a Associação e o Salão de Alunos me bate no rosto. Sinto-o reflectido nas cores das fardas novas. 
Ainda correm nas veias os momentos que não sei por em palavras mas deixo nas imagens... (e, nada mudará isso)
















segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Momentos

A vida passa-se em momentos, que raramente se esquecem ou que se carimbam num pedaço de nós. E, são esses momentos que nos fazem rir como rimos, que nos fazem viver como vivemos, que nos moldam como plasticina. 
Reparo em momentos, sempre reparei. 
Os bons e os maus. 
Os mais velozes, fugazes, de segundos e os que ficam entalados na garganta e são momentos que duram muito tempo (deixando de o ser). 
O momento em que concorri a faculdade, o momento em que entrei para o exame de especialidade, o momento em que fiz a amniocentese, o momento em que o R foi para casa a primeira vez, o momento em que vimos a nossa casa e soubemos que seria a nossa casa, o momento em que te abracei no estacionamento do hospital, o momento em que me pediste em casamento, em frente ao Atlas e debaixo de um perfume misturado de incenso, especiarias e música da cidade velha, o momento em que a S nasceu, perfeita e saudável, o momento em que rescindi o contrato no meu hospital de sempre, o momento em que fiz o primeiro transporte com a M, o momento em que casamos só porque sim e em segredo, o momento em que o R leu o piso de nossa casa, o momento em que a M mamou outra vez. Momentos bons estes, que dão arrepio na alma e fazem-me percorrer com todos os sentidos cada pedaço desses tempos. 
O momento em que me bateram no carro a primeira vez, o momento em que vi a primeira criança morrer na sala de emergência, o momento em que ouvi boatos de mim mesma, o momento em que o berço ficou vazio ao meu lado, o momento em que sozinha me disseram o mais temível dos diagnósticos do R, o momento em que tentam abortar a minha maternidade com dizeres, pareceres e inconsciências hipócritas, o momento em que tenho que deixar o pensamento voar e olhar-me do lado de fora como se se tratasse de uma experiência transcendental para ouvir incólume e serena barbaridades de quem não sabe mais do que míseros anos de vida, o momento em que fiquei doente (e que já passou), o momento em que sou mais forte que o aço. Momentos maus estes, compridos. Mas, curiosamente são estes que sei que levam para além daquilo que acho que consigo, que me tornam mais forte e que me elevam a outro nível. Construo-me em cima das agressões alheias e isso é bom. 
Guardo-os em mim e cada pedaço do que sou, traz consigo um desses pedacinhos de tempo.


Momento a três



sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Relato do início de um ano lectivo

Relato de um início de ano lectivo. De um início de um ano lectivo diferente daquele que vejo nos retratos do facebook e nos posts da maioria das minhas amigas e conhecidas. É de uma amiga longínqua no espaço físico, mas tão chegada no coração. Escreve-me pela manhã de hoje, imagino que com o nervosismo que tão bem reconheço nas pontas dos dedos, porque sabe que o sinto com um laivo de dor na alma, uma dor que já trato por tu. 
Pedi-lhe para o tornar público. Aceitou.


"A semana passada (início de ano letivo) a diretora do colégio apanhou-me a ir buscar os meninos e pediu para falar comigo. O que teria para me dizer? No período entre as 13 e as 14 horas não tinham ONDE, nem COM QUEM o deixar ficar. Isto porque após o almoço ele fica mais agitado e, na sala, a educadora precisava de trabalhar com o grupo e não estava a ser possível. No ano passado, entre 13 e as 15 horas, ele tinha o apoio diário com uma auxiliar que agora estava a ser necessária no recreio e não poderia ficar com ele durante duas horas. Então falamos de várias soluções, nomeadamente a de eu ir ao colégio. Essa proposta foi de imediato contraposta com a de sair com ele do colégio essas duas horas e voltar posteriormente. Eu disse logo que essa opção nem pensar. Porque numa criança neurotipica já é difícil aceitar que a mãe o leve de novo para a escola quanto mais numa criança autista.Depois foi sugerido que as nossas terapeutas fossem ao colégio naquele período mas seria apenas uma vez por semana e não resolveria a situação. Outra alternativa era o apoio de uma professora de educação especial do colégio, obviamente paga como extra. 3 vezes por semana. Ou seja, ficariam ainda a faltar 2 vezes por semana, portanto nem isso seria a solução perfeita. Nos outros dois dias o que lhe faziam? Punham-o a um canto? Enfim. Depois desta conversa toda digerida começamos a ler nas entrelinhas e o que quiseram dizer foi: o seu filho financeiramente não é atrativo para o colégio porque como empresa não podemos colocar recursos apenas para ele. Portanto, por favor, retirem-se. (Não disseram mas de certo é o que pensam...)Isto tudo depois do ano letivo começar. Foi muito duro ouvir isto assim. Nu e cru. Não temos onde nem com quem ele fique das 13 às 14h. E então a família que se arranje. Que encontre soluções. Porque as que temos nem sequer asseguram os dias todos da semana. Eu fui uma defensora do colégio. E não me esqueço o tremendo esforço e o empenho que tiveram para com ele. Agradeço do fundo do coração o trabalho feito com ele. Mas não ao colégio. Agradeço à auxiliar que esteve permanentemente com ele e o ajudou tanto tanto no seu desenvolvimento. Ontem já reunimos de novo e a nossa decisão não podia ser outra senão sair.Hoje é o último dia dos meninos aqui. Foi duro, muito duro. Basta que tenhamos filhos com necessidades diferentes e ficamos muito mais sensíveis. Fui mãe há pouco tempo. Noites dormidas é como sabes. E, de repente sou apanhada (porque fui mesmo apanhada, nem uma reunião com o pai e a mãe teve a decência de marcar) com este valente murro no estômago... Foi vergonhoso a forma como trataram da situação por 1h diária. E a forma como me comunicaram. Mas já temos colégio novo. Com um método de ensino diferente. Quinta pedagógica e horta. Enfim. Vamos ver como corre. Começam na próxima segunda-feira. E, é isto o turbilhão da minha vida!"

Sim, é o turbilhão das nossas vidas... Sei-o de cor e salteado. O "não temos solução, o não há alternativas" é uma constante. Empurram-nos assim, desamparando e não olhando a meios.Tão esquecidos e tão abandonados. Quando ouço comentários de alguns Pais, penso para os meus botões, que não imaginam sequer a sorte que têm, em tudo ser mais fácil na normalidade. Ser um bocadinho desigual, é estar na beira do prato. Tentemos que assim não seja...
Estou contigo e, muito em breve seremos diamantes.





Saudade

Dizem que a saudade só existe em português. Não concordo. A saudade poderá ter outro nome qualquer mas é de todos, impalpável, inata. Eu sou toda cheia de saudades. No Verão, tenho saudades das camisolas de gola alta, de ver a chuva pingar no rio, do Natal e, no Inverno, tenho saudades do perfume a cocô do creme de praia e dos vestidos brancos, dos ombros decotados, do sol.  Nas férias, tenho saudades do rebuliço rotineiro dos dias de hospital e, no hospital, tenho saudades de não ouvir o alarme tocar logo pela manhã, que ainda é noite. Tenho saudades do cheiro a cadernos novos. Tenho saudades de ouvir música em silêncio. Tenho saudades de ir ao quarto-de-banho sem ouvir um  "oh mãe".  Tenho saudades das noites de hospital em que pedíamos cachorros ao lado de lá da rua e devorávamos por entre os doentes que não podiam esperar. Tenho saudades de mãos que afagam o rosto. Tenho saudades de estar grávida, porque já me esqueci dos últimos tempos difíceis que me avassalaram o corpo.
Mas tenho poucas saudades de gente. Tenho saudades da minha avó dos olhos cor de musgo (herdados pela Pedro, a MP que virou Pedro na boca de lábios finos da pequena S). Tenho saudades do meu avô austeramente lúcido, a dissertar todos os recantos do Mundo e as suas histórias da Índia. Tenho saudades da miúda índia, que perdi pelo caminho. Tenho saudades do P.-pai quando trabalha até tarde.  Tenho saudades tuas, meu R, quando vem a semana do Pai. 
Sou toda cheia de saudades...


quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Porto sentido

As gentes do Porto, os tripeiros, sem travão na língua, de saia rodada qual Mercado do Bolhão... As gentes do Porto estão habituadas a paredes de pedra cinzentas e casas encavalitadas a desenhar a Ribeira mais maravilhosa do Mundo. As gentes do Porto sabem acolher como ninguém, falam alto e pára na rua para indicar os caminhos. As gentes do Porto são genuínas. As gentes do Porto têm de aprender a misturar-se com as gentes de outros sítios, aprender a tolerar as filas de trânsito, a conviver com aquilo que o turismo arrasta consigo. 
Houve um boom turístico, que empurrou a cidade e as suas gentes para a frente... As ruas riem até altas horas, em cada recanto há um novo espaço, a cidade move-se como nunca. E, isso é bom, estranhamente bom. 
Por isso, gentes do Porto, continuem de sorriso aberto a quem vem para nos conhecer, mesmo que isso implique sair uma hora mais cedo para entrar no trabalho. Faz parte...








Torre dos Clérigos


TUK-TUK, ser turista na cidade




Cordoaria

O porto no punho