Sofia Ribeiro Fernandes, crónicas de uma Mãe Pediatra e de uma Pediatra Mãe



Sofia Ribeiro Fernandes, crónicas de uma Mãe Pediatra e de uma Pediatra Mãe


sábado, 18 de junho de 2016

N-ó-s

Não somos de andar de braço dado, nem amuamos se estivermos sem nos falar durante dias e dias. Não exigimos espaço ou tempo. Damos puxões de orelha. Sabemos de cor e salteado quando chegou a mostarda ao nariz da outra.
Somos dos momentos. Somos dos dias maus, das dúvidas existenciais e dos segredos debaixo da farda. Somos dos olhares que falam. Somos dos pedaços de tempo em que as mãos tremelicam e alma abana. Recordo cada segundo que passamos lado a lado. Sentadas no chão da porta da secretaria para entregar o currículo. Prenúncios de paragens cardiorrespiratórias que aconteciam. Somos umas das outras e sabemos estar quando é preciso. Não somos melhores amigas, porque não existe isso.
Quero-vos comigo, a meu lado, para mais um momento... Daqueles que dão vida!
Até já, minhas amigas de e para sempre...



NÓS


sexta-feira, 17 de junho de 2016

Poderosas

Somos feitos de sonhos entrelaçados nos olhos dos outros. Somos de ferro, aço e betão misturados. Somos à prova de bala, corta-fogo, resistentes. Somos de seda oriental pintada à mão, mas que aguenta os rasgões. Somos meninos com nome. Falamos no singular. Temos um rosto. Somos de carne e osso, forrado de força. Não nos escondemos, não baixamos os braços, não nos vendemos, não fazemos voz meiga quando nos apetece explodir. Não somos afáveis para quem não o merece. Não somos actores. Não deixamos de dizer porque fica mal. Mas dizemos com voz, nome e entidade. Não somos cobardes. Não somos vendidos e não gostamos de vozes sussurradas. Somos incómodos, informais, inconvenientes, mas fazêmo-lo com nome próprio... Somos bem mais do que o que se vê. Deixamos pegadas no caminho. Já vivemos muito sobre isso e isso ninguém nos tira: a dor, o medo, a ansiedade, as lágrimas contidas, o primeiro passo,  o chão que ia e vinha. Não percamos tempo a falar sobre aquilo que ninguém mais percebe. Esquecidos, desmemoriados, desprendidos, ocos de integridade e vazios de memória. Também já me esqueci!

Aos fraquinhos, pequeninos, anónimos de coração preto enevoado e cotovelo bem dorido. Às pessoinhas falsas. 
Aguentamo-nos. 
Eis-nos! (a música escondida aqui- carregar link- embala esta crónica)


(Legenda visual: língua de fora)

quarta-feira, 15 de junho de 2016

2 anos de ti

Tenho-te ao lado deitada com os pés mexericos de dedos rechonchudos tão iguais aos meus a empurrarem-me a barriga. Tenho-te ao lado deitada enquanto escrevo sobre ti. 
2 anos de miúda. 
Danças com os olhos vivos, quase esbugalhados, deliciosamente vestidos de umas pestanas vaidosas. Tens um riso mascarado e fugaz, genuíno e que escolhe a dedo. 
O teu cabelo quase não cresce e não se deixa enfeitar com laços de menina. 
Gostas de fazer tudo sozinha, de te sujar, de cair sozinha, de comer sozinha. 
Gostas do colo do Pai. 
Gostas de abraçar o Digo (como lhe chamas) e de ficar 5 minutos na cama dele antes de ires para a tua. 
Gostas de encostar o teu nariz ao meu e fechar os olhos, lentamente, como se estivesses a dormir. 
Pões o dedo no nariz,... muitas vezes, e dizes que o estás a fazer. (Não fossemos nós não reparar...) Dás beijos às flores do nosso pseudo-jardim  e regas os vasos e os pés com o coelho-regador. 
Chutas bem na bola e adoras sapatilhas. 
Não sabes adoecer, porque não gostas do sabor de medicamentos. 
A tua amiga do colégio é a Maria Helena e gostas de te sentar com ela dentro de caixas de fruta. 
Não tens medo de nada. 
Gostas de falar alto, tão sem maneiras, sem mais nem porquê.
Tenho-te ao lado deitada, maravilhosa, rabugenta, tão cara do Pai, tão feitio da Mãe. 
Temos-te ao lado deitada, hoje e sempre, meu amor...



2 anos de N-Ó-S





quarta-feira, 1 de junho de 2016

Os meninos de hoje

Ser menino hoje é ser um adulto em miniatura. É superar os caprichos dos pais. É ter que conquistar os sonhos que não são seus. É comer de faca e garfo e não sujar a camisola com massa à bolonhesa. É falar baixinho, em modo sussurro. É ter horas para dormir, acordar, comer e ter aulas de ballet. É não gostar de chocolate, porque faz engordar. É adorar ervilhas e pedir para ir ao restaurante de sushi. As crianças de hoje são o retrato de pais que têm que dar provas da sua mega-capacidade- de-serem-pais-perfeitos. São meninos de banheiras shantala, de festas de aniversário em armazéns de brincadeira, iguais às dos outros meninos. São meninos de horários inflexíveis e de menus escrupulosos de introdução de papas, sopas e afins. São meninos de unhas rentes e limpas. Não sabem fazer caretas e não põem as mãos no nariz. Nunca se esquecem de lavar os dentes. São meninos que já não têm o sonho de ser bombeiro, escritor ou cabeleireira, porque ser o que os pais não conseguiram é que é bom. São meninos de calças sem remendos nos joelhos e que não sabem jogar à macaca. Aos meninos de hoje não se podem dar mimos ou falar à bebé porque seremos punidos.
São cópias falsificadas e miseráveis dos Pais, que nos dias antes dos exames e das férias grandes vão fazer exames de rotina e avaliações pediátricas, não vá o Diabo tecê-las e alguma maleita venha estragar os planos dos pais. 
Os meninos de hoje crescem rápido, velozes, sem recheio... 
Deixem-nos gargalhar e sujar as mãos! 
Deixem-nos adorar chocolate e partir um copo. 
Deixem-nos ser crianças...



Recomenda-se a leitura do livro "A menina dos olhos grandes..." da autora Micaela Guardiano, pediatra-amiga, que nos faz viajar à infância....
Recomenda-se aos Pais e aos amigos dos jantares, que deixem os filhos sujarem-se, porque os nossos continuarão a enfiar a cara nas massas e a deixar cair água no colo...
A nós, adultos-meninos, que nunca percamos esse encanto.
E, quanto a críticas, venham elas, com ou sem nome (curiosamente, a sua maioria são sem nome ou com nomes do mundo do fantástico), porque o que importa no fundo é que cresçam genuinamente felizes, sem rótulos, sem olhares de soslaio e sem comparações. 


Nós & o livro








sexta-feira, 13 de maio de 2016

Such a fine line...

Às vezes relembro que sou feita de cartolina. Não de papel crepe. Não de papel vegetal. Não de papel  de seda. Sou de cartolina, branca, já bem vincada, que se dobra sobre si mesma, que se molda, que se aguenta. 
Deixo que me escrevam palavras soltas, nomes, momentos, gotas de tempo, mas deixo que o escrevam a lápis, a lápis de cor. Deixo que me desenhem, que me pintalguem, que me abracem. Guardo em mim, restos de cores mal apagados, que fazem parte. 
Não deixo que me recortem. Detesto colagens. Não sou dos papéis emprestados. Não sou dos desenhos de régua e esquadro. 
Sou e serei sempre dos aviões de papel, dos desenhos de meninos de 2 anos, das canetas coloridas e perfumadas da minha infância. 
Sou de cartolina, branca pintalgada, onde só escreve quem eu quero...
Sejamos páginas de papel, de escrita fácil, mas não gratuita...