Sofia Ribeiro Fernandes, crónicas de uma Mãe Pediatra e de uma Pediatra Mãe



Sofia Ribeiro Fernandes, crónicas de uma Mãe Pediatra e de uma Pediatra Mãe


quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Amamentação

"A Medicina é como o Amor, nem sempre, nem nunca..." Esta era a citação que me fazia recusar como opção correcta as frases que diziam sempre ou nunca, nos testes de escolha múltipla. 
Com a citação arrasto  e arrisco críticas selvagens pediatricamente fundamentalistas, mas é uma mera e simples opinião.

Amamento e adoro fazê-lo. É delicioso o calor morno que se sente no colo e os olhos tenros quase a semi-cerrarem de prazer. É grandioso dar um pouco de mim, da minha imunidade, da minha resistência voraz e do meu amor. É confortável não ter de preparar biberão, carregar leite adaptado e a temperatura estar sempre ideal. É indescritível.
Mas, há quem não possa e também há quem não o queira fazer. Vejo-o como um direito, uma opção válida. Não o critico, porque simplesmente não é criticável.
É, sim criticável, a atitude salazarista de alguns profissionais de saúde que quase apontam o dedo ou desesperadamente estimulam enraivecidos os mamilos ainda não preparados de algumas mães. Aconteceu-me a mim no nascimento do R e por isso falo e posso falar. A angústia, o medo de falhar e o dedo apontado são inevitáveis. A mim apeteceu-me gritar que não dá, não tenho, não consigo, mas não o fiz porque parecia mal, ainda para mais sendo eu Pediatra (mas não fundamentalista).
Caros colegas, deixem o fundamentalismo de parte. Deixem que aconteça se a Mãe quiser, sem impor ou sem olhares de soslaio. É um acto de vida, puro, genuíno e não uma tortura. Não se esqueçam, "a Medicina é como o Amor nem sempre, nem nunca..."

Após amamentar a S, no 2º dia de vida, sem angústias ou olhares de soslaio...
Perfeito!


iMprobabilidade

Improbabilidades, sou cheia delas.
Gosto de ter os meus amigos de sempre, um amor de sempre, cumprir as decisões que dei como certas, traçar um percurso e não fazer desvios. Mas, de facto, a minha vida veste-se de improbabilidades. 
Tenho um amor improvável. Tenho um R cheio de improbabilidades e uma S que se tornou a decisão outrora ainda mais improvável. Tenho amigos que pareciam improváveis e, como que num sopro, apercebo-me que a improbabilidade é deliciosamente confortável.
Este meu jeito de falar em palavras apresentou-me alguns amigos que parecem de sempre, improváveis como é óbvio. Com um bolo de cenoura húmido bimbyólico ainda meio-morno e um sumo descompensado em modo polpa, contamos estórias, as nossas, despidas e sem H e muito mal (mas, mesmo muito mal) escritas,  por quem as escreveu.  Sorris com os olhos brilhantes cor do mar das caraíbas, e o tempo voa com alma e muito com o coração. És uma amiga tão improvável que muito provavelmente serás a minha M para sempre...

Esta é a única certeza que temos!


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Off

Desligada. Estou em modo off há já algum tempo. Sabem quando estamos sentados horas a fio sobre uma perna dobrada? É tal e qual: um estado dormente da alma, uma caimbrã relaxada e a sensação que tenho de recomeçar devagarinho. 
Perguntam muitas vezes o que sou, e a resposta é rápida e fácil: sou Pediatra. Mas se perguntarem o que faço... bem, aí tropeço na velocidade das tarefas que eu faço e tento ser. Não sei se dá para entender!?... Passo a explicar: sou Pediatra mas faço muitas coisas.
No hospital, uso farda branca-suja (de tão velha) e calço ténis coloridos, corro velozmente e tenho uma força desmesurada para levar as malas de emergência. No consultório, uso vestidos escolhidos a dedo e raras vezes bata branca imaculada, caminho decidida num equilíbrio quase vertiginoso em saltos-agulha.
No hospital, tenho muitas vezes borboletas namoradeiras que batem asas na minha barriga vazia e as lágrimas enchem-me os olhos. No consultório, rio com os pais em conversas científico-amigáveis, que apagam como borracha as dúvidas e angústias.
No hospital, não tenho um sítio meu. No  consultório, tenho uma secretária, uma cadeira, um teclado impregnado em perfume.
No hospital, o tempo voa no relógio que está no bolso da farda, não ha almoço, lanche ou jantar. No consultório, há horas marcadas.
No hospital, há meninos de papel-crepe, misturados com meninos de papel de lustro, quadriculados, pautados ou com folhas de duas linhas. Meninos que me fazem ficar sem fôlego e que escrevem as estórias que ficam carimbadas na memória. No consultório, há meninos de cartolina, lisa, de muitas cores que fazem desenhos da nossa estória de anos a fio. 
É isto que eu faço: faço dos meninos, os que vi apenas uma vez e aqueles que vou vendo durante anos a fio, meninos com estórias e desenhos que ficam na memória. 
E, tenho saudades de ser o que faço!








quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Amor-miúdo



Sabe a algodão doce e perfume de terra molhada depois da chuva. É às riscas amarelas e brancas, porque é a cor preferida do R. É morno como o leite com canela. Ouve-se atrás da porta. É um amor-barato. É um amor-puro, simples e nu. É o amor do R e da S... Num dedo estendido a acalmar o choro mimalho...

À Brígida Brito, de colo doce e voz de embalo, que captou o amor-miúdo da menina da lua (como alguém lhe chamou) e do menino que gosta da cor do sol.






Ssssssss

Chegou carregada de vida. Uma vida tão pouco contida. Tem a pureza no olhar. Tem mãos macias e grandes que abraçaram o mundo num abraço quase esmagador. Tem um sonho em si.
Apresento a S... a minha, do P e do R.

Deixo um Obrigada do tamanho dos balões que faziam a grinalda que esperava por nós, a todos os que passo a citar: Teresa Coelho, Joana Mesquita, Gonçalo Durães, Ricardo Bianchi, Bernarda Sampaio, Maria José Oliveira, Rui Brízida Alves, Luís Brás, Patricia Pais, Fábio Cunha.
E, ao Ricardo, o "meu" fotógrafo e sempre, pela maneira fácil como retrata a vida! (As imagens são dele e não representam nem uma pontinha das maravilhosas fotografias que fez...)

Respiro...



Respiramos



Amigos

Puro amor...