Sofia Ribeiro Fernandes, crónicas de uma Mãe Pediatra e de uma Pediatra Mãe



Sofia Ribeiro Fernandes, crónicas de uma Mãe Pediatra e de uma Pediatra Mãe


sexta-feira, 12 de abril de 2013

Os palcos

Os olhos que se despistam, os abraços apaixonados, os sorrisos que nascem, os gestos que se apagam, os mimos que correm, os chinelos que encaixam nos pés, as bolachas de chocolate que espreitam nas gavetas, as mazelas escondidas. Somos tudo isso e muito mais...Eu e o R., somos actores de um palco qualquer num momento qualquer...
No palco do sofá, o R. é o Vovô T. de voz grossa arrastada, que gentilmente pede os chinelos e eu sou a Vovó P., que com um sorriso nos lábios faz repousar a manta morna sob as pernas de ambos apaixonadamente juntas. Pedem um chá fumegante de todas as noites. Ouve-se a música pingada do chá a deslizar nas chávenas transparentes... A Vovó P. (eu) ergue o braço e o Vovô T. ( R.) eleva a voz grossa arrastada e pinta um olhar de reprovação. A Vovó P. de verdade nunca o poderia fazer porque tem braços frágeis como os pés das flores bebés, que uma vez partiram com o sopro do vento e a fita-cola do hospital não cola braços frágeis como os pés das flores bebés. A Vovó P. (eu) deixou cair os braços partidos e o Vovô T. (R.) ofereceu-lhe, com as suas mãos compridas e pintalgadas de lápis de cor, um chá terno e delicioso nos lábios... Acaba assim a história em que me esqueci de vestir a Vovó P. tal e qual ela é. Acaba assim a história em que o R. pintou o amor que vê em cada momento daquele sofá e que eu nunca tinha visto....


Todos os que nos rodeiam são fotocopiados em instantes que me despertam...O R., tal como os príncipes-meninos, olha os outros com os olhos e com a alma e isso fá-lo ver mais e mais...

R. e a reanimação






É um jogo fácil... Mãos a postos. Engolir ar. Música a definir o ritmo: 15 para 2...

O desafio do R., pequeno instrutor de reanimação pediátrica, é ensinar todos os príncipes e princesas da escola...
Por isso, senhores e senhoras de muitos minutos de vida, aprendam. Pode salvar uma vida!

terça-feira, 9 de abril de 2013

Chocolate & o roubo do R.

Amo chocolate... Chocolate moreno derretido em banho-maria que cola a colher de pau e pinta os dedos. Chocolate elegante vestido de dourado das lojas gourmet. Chocolate magrinho que se parte com um suspiro e derrama creme cor-de-rosa morango. Chocolate confidente dos fins de tarde de chuva em que o namorado se foi embora. Chocolate fervilhante a beijar um crepe numa esplanada de Paris. Chocolate que faz borbulhas e dá comichão. Chocolate casado com amêndoas partidas. Chocolate com pimenta que faz picar a língua. Chocolate que mima uma chávena de café. Fondue de chocolate e amoras liláses. Chocolate das enormes tigelas de barro na Noite de Natal na casa da avó. Velas com perfume a chocolate. Chocolate que faz doer a barriga. Chocolate que adoça a alma. Chocolate que cai na língua num abre-a-boca-e-fecha-os-olhos. Chocolate sábio das horas de livros intermináveis. Chocolate que pinta os lábios. Chocolate roubado da gaveta à socapa.
Amo chocolate...
 
Eu amo chocolate, a Vóvó lábios de morango venera chocolate....e o R. é tão amante de chocolate que  passou de príncipe-libelinha a príncipe-menino assaltante de ovos de chocolate... Com um ar ingénuo e olhitos meigos, exibiu o seu grande feito só quando já não havia maneira de voltar atrás. Ovo de chocolate no bolso escondido, mercearia roubada, ar ingénuo de olhos meigos, longe da mercearia, um "não se faz", chocolate derretido nos lábios, pingas de chocolate no casaco, carro minúsculo de recheio. Conclusão: Assalto bem sucedido!... Que vergonha! 
Denote-se que quando lá voltar vai pagar com tostões, o ovo de chocolate e pedir um desculpa do R..
 
R., o pequeno assaltante

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Príncipe-menino

Os óculos desajeitados e trapalhões foram embora...e, o príncipe-libelinha transformou-se num príncipe-menino! Palavras soltas, para quê?
Deixo antes o retrato do príncipe-menino a namorar um espelho qualquer de lábios cor de melancia sumarenta que escrevem um sorriso despretensioso.

domingo, 7 de abril de 2013

Gota a Gota

Gota que cai desamparada, gota que entra, gota que sai, gota que faz arder, gota que dá vontade de chorar, gota hora após hora, gota que arrasta consigo um n-ã-o redondo, gota com um nome esquisito...mil e uma gotas...E, gota-ante-gota, num toque de magia, pinta-se de castanho cor de grão-de-café os olhos enevoados de outrora. Sim, a cada bater do ponteiro do relógio, a saga perpetua-se e uma história é escrita em palavras que encantam, mas não convencem. Eis, a história das gotas:  as gotas são poções mágicas que fazem os príncipes-libelinhas transformarem-se em príncipes-meninos vencedores de troféus amarelos à sua escolha... A cada bater do relógio as libelinhas têm de deixar entrar a poção mágica que pica como as malaguetas vermelhas e só os príncipes-libelinhas mais destemidos o conseguem...O olhos arregalados do R., pintados de castanho cor de grão-de-café, reluzem de entusiasmo, na ânsia desenfreada de ser um príncipe-menino vencedor, mas quando os frascos inertes se alinham como um exército, o príncipe-libelinha R. do mundo de cá, quer voar e fugir para longe...

Quase parece irónico esta saga das gotas...Mas, casa de ferreiro, espeto de pau...Sinto-me tão pouco Pediatra, mas tão Mãe com o príncipe-libelinha...