Sofia Ribeiro Fernandes, crónicas de uma Mãe Pediatra e de uma Pediatra Mãe



Sofia Ribeiro Fernandes, crónicas de uma Mãe Pediatra e de uma Pediatra Mãe


domingo, 7 de abril de 2013

A libelinha orgulhosa

Minutos preguiçosos empurravam os ponteiros do relógio do corredor agitado. Conversas vãs com uns e outros que vinham e iam. Espreitadelas por entre as vidraças da porta prateada e fria. A aterragem foi apneica e taquicárdica. Mas, a viagem do R. terminara à hora prevista...
Caído nos braços um corpito robusto embrulhado numa manta com perfume a salada de maracujá que teimava em não espreitar nos óculos trapalhões. Um turbilhão de pensamentos e magicada a história: o R. será o primeiro, o vencedor do prémio dos óculos mágicos, um prémio à escolha se deixar os óculos colados no rosto até segunda-feira...
Os olhos molhados, embebidos numa compota transparente, pestanejaram e olharam a parede azul-céu, com um espanto de fazer gargalhar o coração... E, logo as mãos fortes repuxaram os óculos. Mas, pintei a história dos óculos mágicos e a ânsia dos dias que se desenrolam é o prémio de amanhã. 
O prémio? Com o seu ar de libelinha orgulhosa, desenhado pelos óculos mágicos desajeitadamente colados nas bochechas e dedo esticado no ar, diz: cuecas amarelas... A cor favorita do R. continua a ser o amarelo...

A todas as mãos que entrelaçaram as nossas nesta viagem do R.... 
E, às que varreram o nevoeiro dos olhos do R....
Obrigado pela vida a cores!


A libelinha orgulhosa



quinta-feira, 4 de abril de 2013

O bilhete

O bilhete da viagem do R. foi emitido pelo senhor cordial de traje branco, entregue num aperto de mão e guardado por entre os medos.

Hora de embarque: 8 da manhã.
Porta de embarque: porta prateada alta e fresca.
Origem: Terra de nevoeiro atroz, de sombras desbotadas e vidas pouco mais do que brancas.
Destino: Terra de um sol amarelo verdadeiro, sorridente, terra dançarina e colorida. Terra de vozes com rosto e de linhas pintadas com régua, perfeitas, geometricamente desenhadas. Terra azul, branca, amarela, verde...Terra das maças redondas e das árvores elegantes a beliscar as nuvens. 
Passageiro: R. e as mãos que sempre o agarram num colo com perfume de algas.

Estamos prontos a descolar... E, à chegada, iremos retratar a vida a cores e enviaremos num envelope de palavras... Até já!


R. e os últimos momentos enevoados




terça-feira, 2 de abril de 2013

Silêncio...

Rompe no silêncio...E, acalma, aquece a alma, fecham-se os olhos, inspiram-se as gargalhadas e expiram-se os medos...Constroem-se os caminhos...
E, é só...

Caminhos sem fim à vista...




http://www.youtube.com/watch?v=f5BshtpF4mY&feature=share&list=PLAE6D0A0046578449

A viagem do R.

Em contagem decrescente para a viagem do R.. Uma viagem fugaz, precisa, científica, montado num bisturi conduzido pelas mãos hábeis dos senhores das batas brancas. Decretado o dia de hoje como o dia para escolher a farda do R. para a viagem ser mais confortável. Aponta um pijama amarelo, com botões redondos alinhados,  perfume a alecrim, que beija a pele como os lábios de uma flor. 
O R. não sabe que viagem é esta...e, até sorri por saber que vai ao hospital onde a Mamã dá remedinho aos meninos pequeninos... É tão bom uma alma crua, um pensamento do desconhecido, embarcar numa viagem às nuvens...Quem me dera não saber nada de nada... 
Cá vamos nós: 10,9,8,7,6.....5,4,3,2,1....

A pureza do pensamento e o vazio do desconhecido tornam as coisas mais simples. É, nestes momentos, que preferia não saber nada de nada... Angustia-me!
Levamos na mala da viagem enevoada dos bisturis e luzes brilhantes, um pijama amarelo, sorrisos e vontade de que os ponteiros do relógio galopem sem parar....
Embarcamos de mãos dadas...com o R.
R. e Mamã



segunda-feira, 1 de abril de 2013

TIP Norte, parabéns!

Hoje é o dia... quase a parecer mentira, é o dia de anos do Transporte Interhospitalar Pediátrico do Norte! Esta crónica é a nossa...
1 de Abril de 2011, 20h30min: Ouve-se um som estridente que ecoa no bolso da farda branca. As mãos suadas atrapalham-se para atender. Silêncio ensurdecedor... Do lado de lá, uma voz de senhora antiga, diz em tom sabedor: recém-nascido,  poucas horas de vida, taquipneia, vaga na Maternidade. As mãos trémulas desligam. Sorriso nos rostos, vontade que impera, teoria dos livros que brota, ânsia que se abraça e coração que galopa... Incubadora morna, sacos enormes que empurram os ombros e arrancamos para o desconhecido. As sirenes misturam-se com a juventude de duas médicas, a sabedoria da enfermeira e a velocidade cuidadosa do acelerador do TAE. A caminho... Do outro lado, uma senhora de rosto cuidado, mãos compridas e semblante incrédulo debita a ficha clínica do pequeno príncipe para os olhos atentos e apontamentos são rabiscados num bloco com perfume a novo. Inaugurava-se o Transporte Interhospitalar Pediátrico do Norte...
Quilómetros intermináveis, barrigas vazias, vidas gastas e quase desgastadas, mil e uma crónicas para contar... Os jovens médicos de outrora são agora sobreviventes com risquinhas na testa e com cada vez mais raras borboletas na barriga, os enfermeiros preparam os remédios mágicos num suspiro e voam por entre espaços  inacreditáveis, os TAEs embalam nas mãos a estrada com vidros abertos às 5 da manhã pelo asfalto escuro lambido pelos pingos da chuva teimosa. 
Somos fortes e destemidos... Somos TIP Norte, cada vez mais e melhor!

Ao Transporte Interhospitalar Pediátrico do Norte: Maria João Baptista, Marta Grilo, Miguel Fonte, Ricardo Bianchi, Sofia Ribeiro Fernandes (eu), Américo Gonçalves, Edite Gonçalves, Rúben Rocha, Lígia Peralta, Céu Mota, Beatriz Beltrame, Juan Calvino, Enf. Paula Santos e todos os enfermeiros, TAE Miguel Ângelo Santos e todos os TAEs.