Sofia Ribeiro Fernandes, crónicas de uma Mãe Pediatra e de uma Pediatra Mãe



Sofia Ribeiro Fernandes, crónicas de uma Mãe Pediatra e de uma Pediatra Mãe


terça-feira, 5 de março de 2013

Sopa de viola...

O som enrouquecido do dedilhar delicado das violas enfeitado com uma voz com sabor a algodão doce entoa nas colunas do rádio, nos meus ouvidos e na cabeça do R
Soletra soooopa e dá-lhe um paladar tão genuíno que apetece comer, qui bela sopa de arroz com aveia a ferver na panela cheia... E, soa a viola frágil e vagarosa!
Misturam-se os ingredientes que enchem o sorriso do R....


A ternura da voz a entoar com viola as coisas simples... Apresento a sopa de viola...
Risos...



Sopa de viola, a favorita do R.



segunda-feira, 4 de março de 2013

O amarelo do R.

O R. adora amarelo... amarelo cor de palha, amarelo-limão, amarelo ácido que faz arrepiar, amarelo efervescente, amarelo morno.
Derrete-se com os cabelos amarelos ondulados das princesas, desenha com pau de giz amarelo, adora chapéus de aba larga amarelos, a gema amarela dos ovos das galinhas da bisavó, adora meias amarelas puxadas até aos joelhos, adora paredes pinceladas de amarelo.
Amarelo é o sopro de felicidade, a alegria do samba, a energia do que brilha, a força que vem da terra, o fervilhar quente do sol. 
À pergunta de sempre Que cor queres?, responde um balbuciar distorcido que faz enrolar a língua enfeitado por uma dança redonda com o dedo no ar: Amarelo.

Amarelo é na linguagem do R. um círculo desenhado no ar tal e qual um sol. E, desenha-o vezes e vezes sem conta... Acho que no reino dos príncipes e princesas sem relógio, o R. é amarelo, sonha amarelo, respira amarelo...



Yellow R., hoje

Desenhos de catraios

Desenhos de catraios são retratos inocentes das coisas, dos grandes, dos bichos, da vida.
E, nos desenhos dos príncipes e princesas deste mundo, eu sou enorme, cabelo esparguete esticado, uso saia pelos joelhos cor-de-rosa e tenho os braços abertos a abraçar a folha, lábios vermelhos sumptuosos que riem e estou de pé, irrequieta...Chamo-me médica, professora ou tão simplesmente Sofia...Às vezes estou em apuros e outras estou a trabalhar...quase nunca uso bata ou sou carrancuda!
Desenhos dos catraios feitos velozmente à porta do consultório com lápis coloridos de ponta desgastada, são-me entregues com um beijo molhado destemido e ficam para sempre na memória.
Dá vontade de atrasar as consultas para que todos os príncipes e princesas possam fazer inspiradamente desenhos dos catraios. Declaro a partir deste instante que cada mão de criança deverá entrar na porta com as unhas  pintalgadas de cor e a erguer uma qualquer história em papel!
Curiosa inversão de papéis

domingo, 3 de março de 2013

Mamã gosto muito de ti...

Mamã gosto muito de ti...
Escrito a lápis numa folha pautada rasgada de um caderno qualquer.
Escrito com uma letra apressada que exclama e finda num coração pingado.
Chegou e encheu o dia e a noite infindáveis em que sou Pediatra mais que Mãe.
Devolvo no auge da minha impotência um amor infindável à distância de quatro paredes cinzentas.
R. gosto muito de ti...

Mamã gosto muito de ti
Às mãos que içaram o lápis e desenharam as palavras, Obrigada...

sábado, 2 de março de 2013

Corações...

Há mil e um corações...
Há rabiscos de coração de mãos débeis e imaturas que enfeitam quase todos os desenhos das princesas, pincelados de vermelho-vivo ou cor-de-rosa pálido e não são mais do que um carimbo de um amor inocente de criança.
Há balões-coração nas mãos ásperas de unhas encardidas dos feirantes, há almofadas-coração que recheiam as lojas do shopping, há gomas açucaradas-coração que se derretem numa noite de cinema, há bolas de gelado de framboesa que desenham corações.
Há corações grandiosos, robustos e vagarosos. Há corações que assobiam. Há corações que galopam. Há corações minúsculos, traquinas e irrequietos.
Há corações perfeccionistas, que não se enganam, que correm quando é preciso e caminham quando estão cansados, que empurram a seiva da vida para as mãos, para os pés, para a cabeça.
Há corações esquecidos, que perderam partes ou trocaram tudo.
Há corações mentirosos e traiçoeiros que se esquecem de dançar a música da vida ou dançam uma dança diferente.
Há corações mendigos que pedem esmolas a torto e a direito.
Há corações de manteiga derretidos em banho-maria. Há corações de ferro antigo enferrujado. Há corações apertados, envolvidos num nó de cordel. Há corações que dão gargalhadas. Há corações que choram. Há corações piegas. Há corações convencidos. Há corações presos por um fio de teia de aranha que se parte e fogem.
Há corações de Mãe de príncipes e princesas com mil e um corações.
Há mil e um corações mas um apenas para cada príncipe e princesa...


À princesa que conheci ontem, uma princesa de coração esquecido que de tão trapalhão ficou mendigo... E, que dançou preso por um fio de teia de aranha, mas que fugiu.  Ao coração de Mãe que de momento chora... 



Coração de Mãe