Sofia Ribeiro Fernandes, crónicas de uma Mãe Pediatra e de uma Pediatra Mãe



Sofia Ribeiro Fernandes, crónicas de uma Mãe Pediatra e de uma Pediatra Mãe


terça-feira, 24 de setembro de 2019

Partilhado

À T, 
Saí de 24 horas fictícias, que são quase sempre 26 horas reais. Ajustei anti-epilépticos, parâmetros ventilatórios, soros e, tentei ajustar destroços de pais. 
Essa é a parte mais difícil do que faço. 
22 horas, aos pés de uma cama imensa da Unidade. Falávamos do vácuo que nos acomete quando o nosso filho está doente, verdadeiramente doente. Uma indescritível sensação de que estamos num pesadelo, que aquilo não nos está a acontecer, do porquê de ser para nós, do choro que grita no peito e que já secou as lágrimas dos olhos, dos ecos das vozes dos médicos, das decisões que esperamos ser as mais acertadas, da confusão esquizofrênica, do tempo parado no tempo. Falávamos do leite que já não temos porque o medo levou, do almoço que já não sabemos o que foi porque não chegou a ser mastigado, só engolido, da dependência dos monitores, do colo que não pudemos dar, da ida a casa que nunca existiu, do cheiro a banho acabado de tomar e da primeira roupa tricotada que nunca usou.  Falávamos disso com a mesma leveza que se discute a roupa suja no final do dia de colégio. (Curioso, não é?)
Foi esta conversa que trouxe comigo hoje e foi esta conversa que a fez desenhar um sorriso no rosto. 
Foi esta conversa que me fez voltar a escrever e perceber que parte do caminho é esse. 
T, aguardo pela mesma...
Sofia




sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Os Meus

Os que são meus.  É engraçado ouvir sonantes comentários acerca da proximidade com os doentes, ou no caso da Medicina Pediátrica, com os Pais. Questionável, até, diria eu... Mas, na verdade, sou-lhes absolutamente indiferente, passam por mim como uma brisa amena daquelas que não faz o cabelo deslizar no rosto. Os inquilinos daquelas oito camas são meus. São meus durante 24 horas consecutivas e mais outras tantas que se vão semeando todos os dias.  Mas também são meus quando dispo a desarranjada farda amarela e vou para casa, ou quando vão habitar outra cama fora dali.
E, aos que são meus, assumo com eles a dor, a taquicardia, a angústia, a alegria, a vitória. Quero estar no momento de dar a volta ou do click. Não deixo que fiquem na dúvida ou na incerteza, ou pelo menos tento que não o fiquem. Não permito que se sintam sozinhos. Amparo as lágrimas corridas. Respeito a ira. E, por isso, quando um inquilino (não raras vezes), decide abandonar o caminho, exausto do caminho empedrado que se ergueu perante a sua pequenez, também é minha uma tristeza aliviada.
Ao meu pequeno que fugiu devagarinho para um caminho que terá talvez perfume a gelado de mirtilo, será morno como um fim de tarde de Verão e talvez tenha borboletas a dançar ao som de risadas de criança. Boa viagem! 


quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Carta aberta a ti, querida M

Carta aberta a ti.
Tenho saudades tuas. Muitas. Do ar sábio, calmo e sereno com que debitavas os itens do livro verde junto à janela do antigo Bloco Operatório nas vésperas do exame de especialidade. Do teu jeito chocado a olhar para as minhas dissertações românticas da vida. Das trocas de farda no quarto da Unidade em que rezingávamos contra as barrigas estriadas da gravidez anterior. Da tua letra perfeita, na qual só eu adivinhava o teu nervosismo,  nas folhas de registo do dia anterior. Tenho saudades tuas. Dos teus lembretes para os meus mil e um turnos aqui e acolá. Da tua ingénua bondade, nunca perdida. Da tua paz.
Falei contigo à pouco e lembrei-me de como tenho saudades tuas.
A ti minha sempre M, minha companheira e amiga de aventuras inimagináveis que sempre recordo com um sorriso  no peito.
 
 

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Conselho de Mãe, se me permitem

Aos pais que tão bem conheço. Aos pais de hoje. Aos pais que vão ao hospital sem dar paracetamol quando o termómetro chega aos 38. Aos pais que desejam filhos penteados e de roupas imaculadas. Aos pais que vão as consultas pré-peri-pos-natais, infantis, pubertárias e daí em diante. Aos pais que desejam que aos 4 anos os filhos falem francês e toquem  piano. Aos pais que não falham uma única sopa nas férias, nem que para isso tenham que suar as estopinhas. Aos pais que não dão açúcar, nem sal... até aos 3 anos. Aos pais que têm listas de perguntas, intermináveis e sensatas, escritas com data e hora em compêndios comprados para o efeito (e que caibam na carteira). Aos pais que leêm todas as enciclopédias de parentalidade e fazem cursos de como serem pais. Aos pais que delegam nos filhos a conquista de obras por eles não conseguidas.
Há um peso crescente da parentalidade perfeita, mas isso não existe. Costumo dizer, quando os pais se desculpam por os miúdos estarem sujos e que não tiveram tempo de sair da escola e ir à casa tomar banho antes da consulta:”se vissem os meus filhos, parece que brincam na terra...” e a conversa fica por aí. Faz parte...
Aos pais de hoje que são os nascidos nas décadas de 70/80, deixo para lerem o texto seguinte, escrito pela Mãe Imperfeita (do Blogue A Mãe Imperfeita), mas que está perfeito...
E, a propósito, permitam-se à felicidade de uma colher inteira de gelado, de uma camisola suja e, se necessário, de uns joelhos esmurrados. 

“Nascemos na década de 80. Somos a geração que comeu Cerelac, Nestum com mel e papas de farinha Maizena. Somos a geração que levava cem escudos para a escola primária e comprava um Bollycao no intervalo da manhã. Metíamos manteiga nas bolachas Maria e Nesquick no leite. As nossas festas de anos tinham sandes de fiambre e queijo mas também tinham salame e tortas Dancake. A nossa geração bebia Coca-Cola quando tinha diarreia mas antes as nossas mães "tiravam-lhe o gás". Comíamos batatas fritas da Matutano e fazíamos colecção de pega-monstros e tazos. Apesar disto somos também uma geração que aprendeu a comer sopa a todas as refeições e peixe cozido quando as nossas mães assim o entendiam. Não havia comida especial para nós e quando perguntávamos o que era o almoço recebíamos como resposta um "casquinhas de tremoço". Comíamos fruta como sobremesa porque nem nos passava pela cabeça não o fazer. Somos a geração que brincava na rua até à hora de jantar e, no Verão, ainda podíamos brincar depois dessa hora. Andávamos de bicicleta e íamos a pé para a escola, sozinhos ou com amigos. Até para mudar de canal na televisão tínhamos que nos levantar. Somos a geração que ligava para os discos pedidos, a geração que não dissocia a Ana Malhoa do Buereré, a geração que comprava cassetes dos Onda Choc nos expositores dos cafés. Fomos as princesas da Disney e os Power Rangers. Ainda somos do tempo em que os carros não tinham cinto de segurança nos bancos traseiros nem ar condicionado. Jogámos Tetris e tivémos Walkmans e Mega Drives. Tomámos comprimidos de flúor e bebemos óleo de fígado de bacalhau. 

A nossa geração comeu açúcar que se fartou, viu desenhos animados cheios de lutas e outros em que as meninas eram princesas à espera do príncipe encantado. E nenhum mal veio daí. Porque a nossa geração fez tudo com conta, peso e medida. A nossa geração teve mães que faziam o que podiam da melhor forma que sabiam, que seguiam o coração e não viam um papão em cada esquina. As nossas mães eram as mães que nos deixavam lamber a massa crua dos bolos mas que diziam que comer o bolo quente nos dava a volta à barriga. Podiam ser incoerentes, é certo, mas tinham filhos felizes. E nós tivémos mães imperfeitas mas que, na sua imperfeição, souberam dosear tudo e encontraram o equilíbrio. Saibamos nós ser hoje tão imperfeitas como elas foram um dia. Os nossos filhos ficarão gratos. Tal como nós somos gratos.

Que maravilhosas foram as mães dos filhos de 80.”




quarta-feira, 30 de maio de 2018

365 dias

Balanço, diz o dicionário, ser o equilíbrio proporcional entre duas coisas. Não sou de balanços, de todo. Mas, são 365 dias, quase passados e não consigo deixar de rever em modo curta-metragem, talvez até a preto e branco, para realçar as pequenas coisas,  esta outra passagem. 
A dor de barriga miudinha que corrói a cada toque do telefone de emergência, que sempre tive e acho que vou manter para a vida. Os rostos sem nome, que ainda hoje são muitos (ou tantos, como diria a S). O raspanete ácido da Sr. Dra. do Serviço do alheio, ainda hoje de nome sem rosto, que se recusava a falar com colega de voz nova e a roçar juventude, que lhe pedia uma tão necessária transfusão e "ali não era assim" (mas na realidade era imperativa a transfusão e ali era igual a todos os outros lugares). O sistema informático, cujas manhas descobri sozinha. Os corredores tão iguais, maquiados de cores diferentes, que levam a saídas rápidas do elevador, quase sempre em modo engano. Os hábitos e costumes inabaláveis. Os olhares de soslaio, de quem não nos conhece. Os que vão sorrindo e que agora já se riem também. Tudo pormenores. 
O que fica e faz suster a respiração? 
A primeira chamada de emergência. O post-It com a preparação do NaCl a 3% que colei na Urgência. A capa de cartão colorida que aguenta os meninos, 24 sobre 24 horas. A noite de Natal, por entre cateteres, a desembrulhar presentes que não acabavam mais, num ritual já antigo (todos do Serviço deixam presentes para quem faz noite de Natal). A conversa interminável com a mãe do menino-que-nada-iria-fazer mas que demonstrou que o “nem sempre, nem nunca” da Medicina são tão verdade. (Nada que eu já não soubesse, por vasta e calejada experiência pessoal.) A primeira viagem de ida, as primeiras adrenalinas, as primeiras compressões, a primeira dança sincronizada em que não ganhamos o prémio. (Ficam o nome e cama tatuados na memória.) O bolo de chocolate, maravilhoso, que veio das mãos da Mãe que tanto gosto, daquela que não deixo ficar de olhos vazios, da que abraço (eu que não sou de abraços) sempre que os seus ombros se inclinam para mim. A pequena franzina que “deu a volta” depois de rodopios e piruetas, de uma arte quase circense. Ficam os fins de tarde, cor de clementina, que invadem as janelas amplas do corredor. Os telefonemas, não raros, com as vozes amigas do lado de lá do Porto, com as minhas Ms que trazem conforto à alma.
Já me sinto daqui, embora ainda não me sintam daqui. Mas, sou sobretudo e isso sim, é o que conta, sou dos meninos e dos que que estão no cadeirão contralateral ao ventilador. 
365 dias. 

365 dias
Picture by night


domingo, 29 de abril de 2018

Misty days

Somos feitos de neblina daquela que invade o Rio pela madrugada, vinda da Foz, silenciosa e que num piscar de olhos fecha o retrato para o Porto antigo. Somos feitos de átomos e células que se empilham que nem um Lego e fazem um corpo e, é isso que sabemos tratar. Mas, acredito que somos mais do que isso. Não são as células com núcleo e mitocôndrias que nos fazem adorar estradas de asfalto com árvores caídas sobre nós, daquelas que nos levam para longe, nem que seja por instantes. Não são os átomos que nos fazem arrepios ao som de música ou que nos dão a leveza do perfume de jasmim do vaso da varanda. Somos muito para além do que se vê, do que se lê nos livros. Somos inesperados, crus, transparentes. Somos feitos de retalhos de instantes. E, todos sem excepção, somos assim.
É imperativo esquecer (por instantes) o que vai para além da frequência cardíaca e da saturação, para que a cadência de cada acto não se perca, para que a reanimação seja um sucesso, para que o tratamento seja perfeito. O corpo é uma máquina naquele instante e há que pô-la a funcionar. Viramos engenheiros do corpo. 
Mas, no instante em que tudo se acerta, o nome surge, os instantes, os momentos, o que vai para além  das peças de Lego... Pode parecer insensato ou até violento, mas é assim!
Perdem-se alguns pelo caminho, dos que pouco tinham viajado na vida e dos que já tinham uma história contada... Marcam-se no calendário dias de neblina, inesquecíveis, temerosos e sabemos descreve-los um a um... As últimas respirações, o ritmo das compressões, as adrenalinas, os ritmos, os gritos dos monitores, a hora. Perdem-se anos de vida neste caminho, enruga-se o rosto, mas o nome, a cama, os pais, o boneco favorito, ficam para sempre. São a neblina, daquela que invade o Rio pela madrugada, vinda da Foz, silenciosa e que num piscar de olhos fecha-nos o retrato desse dia, para sempre...


Pinky days












quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Com o peso do Mundo às costas

Com o peso do mundo as costas... parece uma metáfora, um cliché, um exagero. Pode até nem parecer nada, sobretudo para quem também nunca sentiu esse peso esmagador da alma. Mas, senti-o também. Vi-o e senti-o. A sua potência esmagadora, o seu grito mudo escruciante, a sua força de Ulisses. Oscilava entre a posição de cócoras amparada pela parede nude e as pequenas mãos desnorteadas do pequeno filho no leito. Os olhos ficavam caídos, colados no chão esterilizado e, por entre momentos, deslizavam medrosos até encontrarem os olhos vagos e recheados de lágrimas do filho. As palavras eram soltas,  num tom tão calmo que arrepiava, interrogatório-afirmativas de uma esperança muito vã. Fui-me deixando ficar de olho no monitor e em ambos, logo ali atrás dos processos clínicos. A reviver uma dor tão parecida. E, num esgar de lucidez, ultrapassado pela ciência, fui levantá-lo do chão, desamarra-lo da parede que segurava com o dorso franzino. Puxei-o e disse-lhe: “nós tratamos dele e faremos o melhor, cabe a vocês terem a fé e a força que nem vocês sabem que existe. Não permito que esteja assim...” Desenhou-se um sorriso e apertou-me com força as mãos.
Não sei se resultou, mas era simplesmente o que eu queria que me tivessem dito quando tive o peso do mundo às costas... 


Aos colegas: sei tão bem o quanto é difícil dar más notícias e também sei tão bem, o quanto é duro ouvi-las. Mas, às vezes, acredito que na maioria das vezes, é imperativo, falar com os familiares, ouvir, responder e perguntar ou simplesmente, fazê-los sentir que estamos lá. 

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Natal, em linha isoeléctrica

Sabe a agridoce assistir aos Pais que reclamam da comida ou da posição das cadeiras na Festa de Natal da escola, quando os teus olhos colam fixos e estáticos e a  tua respiração vira apneia, ao vê-lo tentar-se levantar sozinho no palco da actuação do 3ºano. Era a abertura da actuação do seu ano e iniciava-se com o seu acordar lento do chão. Dirigiam-se a ele, um menino e uma menina, provavelmente os maiores da turma, para o erguerem mais rapidamente do seu acordar simulado. A sua destreza bandida às vezes prega partidas e preguiça. O seu erguer foi lento, ou pareceu-me a mim e, por momentos, anosmia, assistolia, apneia, e todos os "a"s da Medicina (que geralmente não são bons), colaram em mim e os meus olhos colaram nele. Morri por segundos... (e acho que nunca vou deixar de morrer aos bocadinhos)
Queridas pessoas do lado, que reclamam e barafustam com os filhos, porque se enganaram na dança ou no momento de iniciar o canto, não desejo jamais que tenham estas linhas isoeléctricas de pensamento... por isso, aplaudam, riam, olhem-nos, por favor!


quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Gira ao contrário

O mundo gira cada vez mais ao contrário. Está tudo errado. Conto dois dias em que aprendi que a ajuda nem sempre é uma benção. 


Um pontapé no meu tempo é como descrevo a primeira vez que percebi que acima de tudo impera o negócio. Chove lá fora. O Porto veste-se de um cinzento-cimento, frio que se dilui pela calçada antiga a fazer a viagem de carro parecer uma volta de montanha-russa. Entro no Centro onde as pessoas andam aos pares a resolver coisas de meninos raros. E, onde os meninos raros gastam o tempo pelos corredores, deambulando sob rodas. É também um sítio de meninos raros onde a vida flui todos os dias igual a sempre. Propus-me a oferecer parte do meu tempo a fazer Consulta de Pediatria gratuitamente e, a resposta, por entre os agradecimentos tecidos, foi favorável, nada entusiasta, mas teria que ser necessariamente remunerada. Recusei. Fá-lo-ia gratuita e voluntariamente, nunca aceitaria dinheiro.

Recusaram-me.
E assim ficamos. Eu com o meu tempo quase acrobático mas que guardei no bolso, o sítio sem pediatra. Engraçado, quase caricato, como se recusa a ajuda voluntária, só porque sim.


A outra vez descrevo-a como um balde de tinta não nos chega. Há cerca de 2 anos, estabeleci milagrosamente a ponte entre um centro de reabilitação algures do Porto e uma grande empresa, para o apoio à reabilitação do mesmo, gratuitamente. Criada a ponte, enchi-me de telefonemas, hiperactiva como sempre. Pois bem, uma pintura, mudança de piso, decoração foram recusadas, porque afinal o que queriam mesmo era uma sala sensorial. Uma bela ideia, ajustada às patologias, mas que a empresa não poderia concretizar. Recusaram então qualquer outra ajuda porque o que queriam mesmo era uma sala sensorial. 




Há um mundo virado do avesso. Pessoas que recusam dádivas. Pessoas que usam os donativos para o fausto, para representação da raridade alheia ou que simplesmente não os aceitam porque queriam uma coisa diferente. Perde-se, e sei que erradamente, a vontade de ajudar, a acrobacia do tempo, a mobilização dos outros.

Mas não se pode perder, porque os raros não se perdem pelo caminho.


Os raros podem ser super heróis, desde que não se percam pelo caminho.




domingo, 27 de agosto de 2017

Vidas suspensas

De  regresso às histórias da vida real. De regresso aos minutos contados a marcapasso por entre os apontamentos manuscritos e os alarmes dos ventiladores. De regresso aos meninos de olhos vivos cujo corpo se vai esquecendo de gesticular. De regresso aos bólus de vida e às perfusões de sonhos. Regressei e está tudo tão igual. O menino de coração estragado que não quer respirar sozinho. O menino que se esconde numa carapaça franzina que lhe deixa espreitar um sorriso doce de maracujá. A menina de mau feitio a quem ofereceram um rim novo que baptizou com um nome próprio digno de novela brasileira. 
Os meninos que vão e vêm e que ficam com os seus defeitos e feitios agarrados a maleitas de nomes esquisitos. Os meninos, são filhos de mães e pais, que se esquecem das horas, do dia do mês, dos cafés longe do refeitório do hospital, que se esquecem de respirar ar fresco, que se esquecem de ser namorados, que se esquecem de ser professores, que se esquecem do nome dos filmes do cinema. São também eles pais de coração estragado, pais escondidos nas carapaças, pais de rins novos. Agarram-se às vidas suspensas, sabem de cor as horas dos bólus e identificam pela cor os nomes de cada fármaco que se injecta, aspiram-nos com a arte de um especialista, reconhecem cada alarme. 24 horas do meu turno, vivem comigo cada bocado em que estou acordada, mas para eles que ficam encolhidos num cadeirão, sem nunca querer incomodar, são 24, sob 24, sob 24, para a vida toda...


Aos pais do menino escondido atrás de olhos vivos cor-de-azeitona que empurrei (ordem médica) para um namorico fora das nossas quatro paredes e a todos os outros... 




sábado, 29 de julho de 2017

Fausto

Fixei-me nos sapatos, pretos, de pele entrelaçada e possivelmente com perfume a tinta fresca de sapatos. Deitado em frente a mim, imóvel e só me fixei nos sapatos. Devia olhar o rosto, as mãos, a gravata, mas só me fixei nos sapatos. O rosto emagrecido, as mãos débeis, não pareciam as suas. Mas, os sapatos estavam tal e qual: iguais. Sempre impecavelmente limpos e arranjados, um verdadeiro luxo que não abdicava. 
Fica a imagem dos sapatos alinhados a somar-se às muitas outras que me deixas ficar. O pão fresco que, com chuva ou sol, ias buscar para mim. As compras de adolescente que nos faziam ir às lojas mais cool da cidade. A colher tingida de negro brilhante que acompanhava o almoço de todos os dias e que tinha sido a companheira na Índia, a única companheira de meses a fio. As histórias que contavas em qualquer lado e a qualquer hora, penetrantes. A liberdade em aceitar as mudanças, que a idade não daria. A firmeza nas decisões. Os amigos da rua e do café. E, fica tanto mais...
Ao homem mais íntegro e maravilhoso que alguma vez conheci.





terça-feira, 11 de julho de 2017

Nem doutor, nem Engenheiro

Os médicos deveriam ter, na formação, uma cadeira de boas maneiras, de gentileza, colocação da voz, e de bom senso. De regresso ao sítio onde os meninos ficam mais doentes e por mais tempo, ou porque se esqueceram de contar o tempo para nascer, ou porque desregularam os botões da máquina, apercebo-me assim, em modo espectadora, que fazem parte as palavras. 
As palavras contam. Contam quando são em modo off/surdina. Contam quando vêm embrulhadas em mãos que se tocam. Contam quando são transparentes. Contam quando não são fugidias. Contam quando não nos fazem morrer por dentro por mais cruas que sejam. 
Ilude-se quem pensa que que é fácil dar más notícias. Não é. E, há muito quem não saiba fazê-lo, e o faça da pior maneira. 
A exemplo: dizer para uma terceira pessoa, "já sabes que nunca há-de ser doutor ou engenheiro", mesmo à tua frente, para que ouças esse pensamento acompanhado de um acenar de cabeça afirmativo que o reforça. Esta constatação reforçada pelo aceno, é uma forma parva de tentar perceber se estás ciente do futuro, um baixar expectativas e abanar o coração. 
Cara colega, a constatação do futuro premeditado não dita condutas, nem modifica sorrisos. Ouvir desta forma é rude e dói, não pelo futuro mais ou menos brilhante, mas pelo que traz consigo nas entrelinhas. (Que se lixe o Dr. ou o Eng...) Cara colega, seria uma nota zero redonda na cadeira proposta para integrar os novos cursos de Medicina.
(Episódio pessoal datado de alguns anos atrás. Agora, deixei de ouvir constatações estupidifico-científicas- esta palavra não existe, mas achei-a tão perfeita...) 


Eu & Josefinas em Vidago Palace Hotel a colorir o chão pintado de igual e simércio



quarta-feira, 21 de junho de 2017

AssixFix Air, uma novidade deliciosa

Perguntam-me vezes e vezes sem conta qual a cadeira melhor, qual a mais segura e práctica, qual a que conselho.
Geralmente, aconselho aquela que também uso com os meus filhos, porque se apostei nessa marca, nesse modelo é porque acredito nele e isso é o que podem assumir.
Nos últimos dias tive conhecimento que a partir de Setembro, a Dorel, uma pequena unidade industrial sitada em Vila do Conde, vai produzir uma inovação maravilhosa para quem quer adquirir uma cadeira auto. Chama-se AxissFix Air ( modelo da cadeira Maxi-Cosi, da Bebe Confort)e detém um airbag activo na própria cadeira. Portanto, Pais que pretendem comprar cadeiras a curto prazo, se puderem aguardem até Setembro pela novidade.






Parabéns à iniciativa da Dorel que mais uma vez está em prol da segurança rodoviária infantil e a ajustar necessidades. Saliento que é a única marca em Portugal a  disponibilizar cadeiras de bebé para crianças com Displasia da Anca.




S na Assixfix



terça-feira, 13 de junho de 2017

Ode à S

Tinhas tudo para dar certo. O nervoso-miudinho, o dia escolhido a dedo, as ecografias nos percentis adequados à idade gestacional, as vitaminas engolidas sempre à mesma hora, os retratos em cenários fabulosos, o amor das mãos do Pai, a barriga voluptuosa, o enxoval alinhado e com perfume a Verão, os neonatologistas a postos. Tinhas os olhos postos em ti e em mim, a crítica permanente e o dedo apontado para a escolha de ser cesariana, de dia e hora marcados. Pontuais, assertivos e medidos de régua e esquadro. Que se lixem os dedos apontados e os comentários anonimamente reprovadores. Que se lixem os que não sabem o que dizem. Não voltaria a passar pelo sufoco interminável de horas de um parto abandonado num cubículo de hospital público, com direito a diplopia, a uma sede tremenda, a uma laceração do períneo e a um filho que só ficou duas horas nos braços e migrou para a incubadora. Não voltaria a viver aquela angústia, medo e desespero, por isso, escolhi que o teu primeiro inspirar de vida cá fora fosse no dia da Avó Carmina, tão ele cheio de luz e quente como ela era. Escreves nas gargalhadas uma felicidade de arraial de S. João, cantarolas a vida como ninguém, comandas nessa tua pequenez a malandrice de criança e marchas pela sala fora tal qual a Avó. 
Sim, deste certo, muito certo.

Mais um ano de vida à pequena S, que dança como ninguém a dança que Avó dançava, que se enerva de igual modo e que continuará as suas pegadas cá por baixo... A si, Avó Carmina, brindemos com um bom champagne e gargalhadas, porque dizia e muito bem, que um gole de vinho é alegria e sempre a conhecemos assim!









quarta-feira, 7 de junho de 2017

Programa ESTOU AQUI

É azul e carrega nela toda uma informação essencial em caso de necessidade. É gratuita e pode fazer a diferença...Convido-vos a aderirem ao Programa ESTOU AQUI!


Estamos aqui...

sábado, 15 de abril de 2017

O essencial é invisível aos olhos

Só escrevo quando me apetece. São tantas as ideias que me assaltam a cabeça, mas o tempo falha e quando me sento ao teclado, não faço ideia por que ponta lhe hei-de pegar. Vou pegar na ponta das pessoas que não sabem que são tão felizes. Sempre que acontece algum desafio na vida de alguém que nos está próximo, lembramo-nos que devemos viver mais, sonhar mais, querer mais, amar mais. E esta semana foi isto que aconteceu. Há momentos em que a vida congela a sua capacidade de fazer pulsar o coração e de andar para a frente. Na verdade, nestes momentos, ela não te puxa o tapete, ela puxa-te as pernas e cais no chão, com o corpo todo, enquanto tentas manter a cabeça elevada. Nesse instante, perspectivas a vida nessa perspectiva, no chão. E, quando deitados no chão impotentes, remoemos os momentos em que estávamos de pé, irados por uma estupidez qualquer. Os desafios são matreiros e aparecem do nada. Resta-nos, aos desafiados e aos que os rodeiam, pintar o chão de verde-primavera, semear margaridas e deitar lado a lado para depois levantar.  
Por isso, pessoas que não sabem que são tão felizes, lembrete no coração: respirem, riam, gritem, viajem, façam nascer, cuidem, apaixonem-se...













sábado, 1 de abril de 2017

Parabéns Tip Norte!

Escrito há 4 anos atrás:
"Hoje é o dia... quase a parecer mentira, é o dia de anos do Transporte Interhospitalar Pediátrico do Norte! Esta crónica é a nossa... 
1 de Abril de 2011, 20h30min: Ouve-se um som estridente que ecoa no bolso da farda branca. As mãos suadas atrapalham-se para atender. Silêncio ensurdecedor... Do lado de lá, uma voz de senhora antiga, diz em tom sabedor: recém-nascido,  poucas horas de vida, taquipneia, vaga na Maternidade. As mãos trémulas desligam. Sorriso nos rostos, vontade que impera, teoria dos livros que brota, ânsia que se abraça e coração que galopa... Incubadora morna, sacos enormes que empurram os ombros e arrancamos para o desconhecido. As sirenes misturam-se com a juventude de duas médicas, a sabedoria da enfermeira e a velocidade cuidadosa do acelerador do TAE. A caminho... Do outro lado, uma senhora de rosto cuidado, mãos compridas e semblante incrédulo debita a ficha clínica do pequeno príncipe para os olhos atentos e apontamentos são rabiscados num bloco com perfume a novo. Inaugurava-se o Transporte Interhospitalar Pediátrico do Norte...
Quilómetros intermináveis, barrigas vazias, vidas gastas e quase desgastadas, mil e uma crónicas para contar... Os jovens médicos de outrora são agora sobreviventes com risquinhas na testa e com cada vez mais raras borboletas na barriga, os enfermeiros preparam os remédios mágicos num suspiro e voam por entre espaços  inacreditáveis, os TAEs embalam nas mãos a estrada com vidros abertos às 5 da manhã pelo asfalto escuro lambido pelos pingos da chuva teimosa. 
Somos fortes e destemidos... Somos TIP Norte, cada vez mais e melhor!

Ao Transporte Interhospitalar Pediátrico do Norte: Maria João Baptista, Marta Grilo, Miguel Fonte, Ricardo Bianchi, Sofia Ribeiro Fernandes (eu), Américo Gonçalves, Edite Gonçalves, Rúben Rocha, Lígia Peralta, Céu Mota, Beatriz Beltrame, Juan Calvino, Enf. Paula Santos e todos os enfermeiros, TAE Miguel Ângelo Santos e todos os TAEs.
E a todos os outros que tornaram o TIP Norte uma realidade..."

Hoje, parabéns aos que mantém o TIP Norte e que o fazem continuar a salvar vidas...


















segunda-feira, 27 de março de 2017

Idade do Armário


Revivalismo-musical-adolescente: as calças justas levi´s 501, os biquinis pequenos demais, o cabelo acima do ombro e bem escorrido, as férias de Verão na Praia da Areia Branca, os amigos com pronuncia do sul, as raras borbulhas na testa, as aulas de step de manha e à noite diárias, a 1979 dos Smashing Pumpkins, as festas de garagem. As vidas, tão complicadas e tão desconhecidamente simples, de adolescente...

Diz-vos isto alguma coisa?






domingo, 26 de março de 2017

Felicidade= Happiness= Felicità= Geluk= 幸福= Glück

A felicidade, às vezes, parece difícil, impossível, longínqua...mas garanto eu, que não é. A felicidade é tímida e forreta. Vem aos bocadinhos, envergonhada e é preciso chamar por ela. É nos momentos mais crus, mais ínfimos, mais baratos que a felicidade mora. É preciso saber vê-la, senti-la e respira-la. É preciso não buscar a perfeição no que é ser feliz... Ser feliz é uma gargalhada no meio do nada, é o primeiro respirar de uma vida, é uma conversa de corredor, é uma viagem de poucos dias, é a S ir de sandálias para o colégio em pleno Inverno, é o primeiro dente que nasce, é o fim de uma vida indigna, é uma dança no meio da sala a tropeçar nos brinquedos espalhados. Ser feliz não é uma casa na Foz ou a última tendência Dior. Ser feliz não é um estado, mas é um instante, breve e veloz. 
O segredo: viver com o coração e olhar à procura da felicidade onde não parece haver nada...

(Felicidade é também ouvir isto nos silêncio da noite https://youtu.be/4C8e7nNLZNs)


Keep simple

segunda-feira, 20 de março de 2017

C-á-r-m-i-n-a, com acento

(Com música, seria esta: https://youtu.be/lAwYodrBr2Q?list=RDQB0ordd2nOI)

Escrevi-lhe a 25 de Outubro de 2016:

C-á-r-m-i-n-a com acento... (Tal como costuma relembrar a quem pronuncia mal o nome e a quem o diz de uma forma menos forte e intensa a que tem direito.) 
Com acento escrito no nome e na alma. Tem nos braços o embalo de avó e no peito um amor sem medida. O rosto debruçado sob a Maria encobre uns olhos vivos para além das suas 7 décadas de mulher. Reluz na dança combinada com a Sofia a sabedoria dos anos, mas a juventude de um pensamento tão rara de se encontrar. 
Cármina com acento. E, mais não preciso dizer...


As mãos débeis tactearam: 

Obrigada pelos olhos sensíveis e belos da maneira como me vês! Beijos de gratidão...

E, é isto.
Ficaram pelo caminho meses de angústia, dor e uma doença galopantemente desconhecida. Mas, disso soube libertar-se e por isso, já não interessa nada.
Muito mais do que isso: ficou desenhado um caminho em que as risadas, os retratos de instantes da S que nem eu documentei, as danças marchadas pela sala fora, a pronúncia de Viseu, o arroz com frango e as almôndegas gigantes, os conselhos sábios e os ouvidos atentos dos meus desvarios de mulher-ainda-jovem. Estamos no seu caminho e sabemos que o continuará a desenhar com um pau de giz como rascunhava as letras de primária na escola da Gafanha...
Obrigada por ser tão somente C-á-r-m-i-n-a, com acento, é claro!


Tal e qual



O primeiro ano e os muitos anos das Catarinas

N-Ó-S

N-Ó-S


O olhar sobre a Maria que continua
Uma foto do seu perfil de FB, a que mais gosto