Sofia Ribeiro Fernandes, crónicas de uma Mãe Pediatra e de uma Pediatra Mãe



Sofia Ribeiro Fernandes, crónicas de uma Mãe Pediatra e de uma Pediatra Mãe


sábado, 7 de novembro de 2015

Contra o vento

Com a cabeça num turbilhão, tem sido assim. O desejo de escrever desgasta-se e a mesquinhez alheia apodera-se do pensamento. Achava que já sabia gerir poderosamente os olhares ade soslaio, a indiferença e a percepção de que os Rs dão efectivamente mais «trabalho» que os outros meninos. Mas quando após um mês de luta incessante contra um sistema pedagógico instalado, incontornável, duro e egoísta, nada muda, percebo o quanto somos poucos a remar contra a maré.
Reunião com a Coordenação da escola. Tentativas várias de telefonemas em vão. Aparecemos sem avisar e exigimos falar com alguém da direção. Dizem-nos coisas, muitas coisas acertadas que até com algum esforço consigo perceber. Digo-lhes outras em contrapartida, e explico-lhes que os Rs progridem, crescem, evoluem, adquirem competências. Dizem-me num tom brando, lânguido e a roçar a compaixão que «Uma criança deficiente nunca vai deixar de o ser...»... Ficamos por aqui. Páro com um olhar arregalado e a querer esmigalhar o pescoço em frente a mim. (Quase o fiz...) E, eu não sei isso? Não tenho qualquer prurido com o nome, termo, palavra deficiência, nunca tive, nem hei-de ter. Mas o ser deficiente não significa ser incapaz e desprezível. Não significa inércia e passividade. Ficamos por aqui. Sem soluções aparentes. Não nos dão, nem tentam dar, dizem com uma palmadinha nas costas, recheada de quase pena, tentem vocês, porque os pais têm mais força que os professores. Sim, esses tais professores, dessa tal escola que dizem aos pais dos meninos Rs que «o mal tem que se distribuir pelas aldeias».
Se cozinhar cada um destes sábios dizeres, conseguia fazer um livro de bolso que atenta à dignidade humana...
Não tenho escrito por isto, porque só consigo escrever o feio e é duro correr contra o vento.



5 comentários:

  1. Um grande beijinho Sofia!!!
    E muita força nessa luta tão injusta!
    <3

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  2. A escolas e escolas a q minha filha anda todos os meninos q lá estão tem junto com os professores e funcionários e alunos tratam com muita atenção os q tem algum tipo de deficiência.pois ter uma limitação não quer dizerq não sejam capazes a la meninos q estão no 9 ano e minha filha diz q são mais esforçados q muitos q se dizem normais. Mais vale buscar uma escola pk todos são normais e o mais importante são crianças tem o direito a aprender no tempo deles.

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  3. Apesar de não termos qualquer tipo de "relação" (nem boa, nem má), apesar de não nos conhecermos mas eu saber quem é, apesar de ter algum ponto do meu coração que me faça não comentar qualquer post seu, sou em "segredo" sua seguidora (o Pedro poderá explicar). Não posso ficar indiferente a este... Um texto (tal como todos) tão bem escrito que me tocou seriamente no coração... Apesar de ter (felizmente) duas filhas, digamos que "normais" (se bem que o termo normalidade é muito ambíguo) compreendo-a perfeitamente... Este Portugal é mesmo muito pequenino, e como mãe choca-me a atitude mesquinha das pessoas. Como é possível dizerem tais palavras, tais barbaridades, como é possível não ajudar uma criança a crescer, a evoluir a SER FELIZ??? Estou tremendamente magoada com tudo isso. Como mãe que sou, nunca, mas nunca sairia dessa escola sem esbofetear vebralmente essa pessoa. Tenho dito! Desejo as maiores felicidades para si e para os seus bens mais que preciosos. Mas faça-me um favor, não deixe de escrever... Essas pessoas são tão insignificantes e tão pequeninas que não podem de maneira nenhuma impedi-la de o fazer. Um bom ano*** *

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    1. Obrigada... Relembrou-me que já não escrevia há algum tempo ao abafar esse pequeno ponto que a impedia também de escrever ;)...

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